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quarta-feira, 10 de julho de 2024

o acadêmico e o artista

cada dia é mais claro que não sou, não serei e que nem quero ser culto. essa é uma fronteira que me separa do mundo dos artistas, que circundo, demonstro interesse, e até frequento como turista. minha vulgaridade é contudo indisfarçável. mais confortável estou entre os acadêmicos, entre gente mal vestida, que não sabe se portar à mesa, que se assemelha ao profissional burguês, em vestes de trabalho: não possuem aquela graça aristocrática na fala e modos, o instinto de agradar, a arte da boa vida, a elegância travestida de boemia, traços característicos do tipo artista e culto. o acadêmico pode até mesmo ser erudito; seu discurso pode impressionar pela inteligência, mas nunca pela retórica. desajeitado e bruto, ele conhece, somente. daí sua dificuldade instintiva com as palavras e o amor inato às ideias.

quinta-feira, 30 de maio de 2024

que me aconteceu quando me bem vesti para ir a uma festa de literatos da zona nobre

haviam me convidado para um evento de supostos artistas que ocorreria na zona nobre da cidade. fui até a cômoda onde guardo minhas roupas e retirei de lá a excêntrica casaca que guardo somente para tais ocasiões solenes. tirei minha camiseta preta e velha, de gola esgarçada de tanto vestir, e como a do banheiro estava quebrada, fui até a pia da cozinha lavar minhas axilas.

o tempo estava frio, mas o comboio que tomei, sem ar-condicionado, fez que sentisse o suor escorrendo por minhas costas. despi minha excêntrica casaca e também o chapéu de minha cabeça. ao meu lado, um rapaz de jeito simples, me observava com interesse. incomodado com o jeito que me observava, o interpolei com ríspida polidez:

- os olhos do senhor estão procurando alguma coisa?

- sinto muito, meu chapa. não era de forma alguma meu intuito importuná-lo. somente achei curiosa essa sua casaca. 

envergonhado, ele não voltou a me olhar. em um movimento veloz, desceu algumas estações antes da minha.

o evento com os escritores foi insípido. como suspeitei, não havia lá nenhum artista. voltei para casa entediado, arrependido pelo dinheiro que gastei, mais do que pelo tempo. sozinho, tremendo de frio embaixo de minhas cobertas, só consegui pegar o olho depois de tomar meia garrafa de uísque de segunda. 

sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...