do utilitarismo, pelo fato de, como toda construção ética, buscar a felicidade, facilmente se confunde com o que se chama, vagamente, de hedonismo, mas somente pela confusão que toda mente utilitária, fundada na ascese e na economia, faz entre felicidade e prazer. essa é a convergência fatal entre filosofia epicurista e utilitarista: o gesto ascético, o controle do desregramento como imperativo de felicidade. o hedonismo verdadeiro, contudo, possui sempre um quê de trágico, um quê de dionisíaco, e mesmo de sádico, em que toda economia somente pode ser justificada perante o acúmulo de um dispêndio ainda mais imperioso. é a moral de marques de sade: o gozo mais intenso somente é possível por meio do cálculo e disciplina preliminar. nisto, talvez, separa-se dois gêneros de hedonista: o vicioso, ou ainda, o viciado, preso na imediatez, na repetição frenética, que acaba por esvaziar todo o prazer lento da espera e da conquista, e aquele hedonista sádico, que faz da demora, da cerimônia e expectativa um meio não de adiar o orgasmo, mas de intensificá-lo. e se o hedonista sádico se assemelha ao utilitário pelo vício na economia, no controle sobre si, é preciso distingui-los pelos seus fins, pelas diferentes felicidades de cada um: se o sádico hedonista antevê e pratica, pela elasticidade e demora do meio, seu desejado gozo, o utilitário como que transforma o meio em fim: seu orgasmo é o acúmulo infinito, o gozo de jamais romper a economia em dispêndio: nesta retenção infinita que justifica toda sua vida. e quando seu corpo, em algum ponto, não tolera tamanha repressão, se ceder, será com dor. todo utilitarista, se vier a ser um hedonista, será para se arrepender, mesmo que para se arrepender mil vezes do prazer que nega outras mil desejar. daí a singular confusão do utilitarismo entre felicidade e prazer: sua felicidade está justamente em negar, pelo culto da utilidade, o dispêndio que tanto lhe daria prazer
quarta-feira, 10 de julho de 2024
terça-feira, 18 de julho de 2023
SOBRADOS & MUCAMBOS, 269 - 270: sacrifício econômico do comerciante e o dispêndio boêmio de seus filhos aristocráticos
Que viessem portugueses ou estrangeiros para trabalhar nos campos. Que viessem portuguesas "de dose a vinte annos de idade na qualidade de amas substituirem as africanas que tão prejudiciaes nos são na educação das nossas famílias". Mas não portugueses que continuassem a se apossar do comércio de retalhos e cabotagem, reduzindo os brasileiros "á condição de escravos". Não portugueses que, a título de adotivos, viessem participar da nossa política, alguns "dando dinheiro, para se guerrear, aos brasileiros, nas eleições" e "todos agradando os homens do poder contanto que os deixem desfrutar esse manancial de grandeza..." De modo que a 12 de julho de 1850 a linguagem de redatores de jornais como O Conciliador continuava, com relação aos estrangeiros, quase a mesma dos panfletário dos dias, ainda quentes de saNgue, da Revolta Praieira. A mesma linguagem daqueles outros nativistas que, no Rio de Janeiro, pelo O Homem do Povo Fluminense (24 de dezembro de 1840) chamavam aoa portugueses "esta raça de judeus" [...]
Um dos pontos destacados pelo jornal A Revolução de Novembro, em seu editorial de 29 de setembro de 1850, foi precisamente este: a "classe dos agricultores" estava reduzindo-se a uma classe de "pessoas arruinadas pelas dívidas immensas que contrahem com os portugueses..." [...] "os filhos de portugueses" eram pelos pais considerados seus inimigos e "substituidos em suas casas, em seus logares, em suas riquesas, por outros portuguezes, por meio de casamentos com suas filhas..." Os filhos de brasileiros ou mestiços tornavam-sr "os miseráveis da sociedade" isto é, das sociedades comerciais organizadas pelos pais lusitanos que, por uma perversão, econômica e sociologicamente explicável, do sentido - para não dizer "instinto" ao modo de Veblen - de continuidade patriarcal de poder, favoreciam as filhas nas pessoas dos genros vindos de Portugal como caixeiros. Caixeiros quase impossibilitados, pela sua condição de indivíduos nascidos em Portugal, de dispersarem a "fortuna da casa" tornando-se romanticamente poetas, políticos, advogados, doutores, bacharéis, intelectuais brasileiros.
Amigos das mestiças ou mulatas, os portugueses temiam nos mestiços ou mulatos - mesmo quando seus filhos - o romantismo boêmio de brasileiros que, desdenhosos da mercancia e empolgados pelas profissões liberais, pelas belas-letras, pelas belas atrizes, pelo bel-canto, comprometessem a continuidade da riqueza feia e forte conseguida e acumulada com esforço às vezes heróico, embora prosaico e desacompanhado de qualquer música: violão era para brasileiro. Modinha também.
Também banho, sabonete, perfume. O caixeiro português enriquecia com sacrifício do próprio asseio do corpo, no qual às vezes se exagerava o brasileiro. Como se exagerava na boêmia às vezes turbulenta. Temiam os portugueses do Reino na plebe de gente de cor o ódio de miseráveis e, principalmente, de malandros ou vadios - os capoeiras do Rio de Janeiro, de Salvador e do Recife, por exemplo - contra eles, portugueses, mercadores ou ainda caixeiros de sobrados e de loja, enriquecendo penosamente no comércio de charque, de bacalhau, de azeite, de vinho, e não apenas no de escravos.sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história
1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...
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