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terça-feira, 6 de agosto de 2024

ai, minha fama de maldito. PARTE VI. o encontro.

 o chefe estava furioso. descia as escadas com os olhos vermelhos de raiva. chegou até a mesa de fernando, o escrivão, e berrou na sua cara:

- homem, por que ainda não me entregou o relatório?

- mas chefe, ainda tenho duas horas para...

- não importa! quero agora na minha mesa!, e saiu assim, puto da vida. fernando, irritado, queixou-se a praxerdes: 

- esse filho da puta é um merda, um merda. acabou de chegar na empresa e acha que pode falar assim com os outros. 

- sim, homem, disse praxerdes sem virar o rosto de suas planilhas.

o que está fazendo, praxerdes?

fernando foi espiar as planilhas de praxerdes e viu que ele estava falando com uma mulher casada de mais de sessenta anos. 

- ainda está falando com aquela senhora janice?

ele abriu rápido suas planilhas e disse, sem olhar par fernando:

- eu estou sim. 

- achei que ela tinha te dado um fora. 

- fizemos as pazes. 

- entendi. 

no seu íntimo, condenou as escolhas de praxerdes. praxerdes, seu idiota. não vê que essa mulher só atrasa sua vida? está gastando seu tempo para agradar uma viúva excêntrica? que banca sua vida de pratos caros, leva-o à tira colo para museus da frança e fez-lhe conhecer toda a grande sociedade? se ao menos fosse bonita..., mas não, a velha estava acabada. e havia ainda seus filhos, da mesma idade de praxerdes. ah, pobre praxerdes, precisando conviver com a inimizada da família dela. sendo hostilizado por trabalhar em um simples escritório. como se submete a tudo isso, por tão pouco? 

fernando homem era um escriturário de ares inquisitivo. em sua opinião meticulosa, condenava as pessoas ao seu redor a uma existência de miséria. diagnosticava os fracassos de cada um com a propriedade de quem conhece todos os pormenores e fatos. no entanto, geralmente, se antecipava na conclusão. assim, desde o início partindo da premissa equivocada, construía argumentos complexos que provavam a veracidade de seu equivoco. a evidência produzida por fernando era formidável, e capaz de enganar, ao menos, ele próprio, a acreditar que sua premissa primeira era verdadeira. 

na semana seguinte, fernando publicou seu primeiro livro, chamado filosofia primeira, em que provava, logicamente, como toda visão de mundo estava fundada em alguma coisa: logo, concluía, toda mentira é de alguma forma verdadeira, e somente aguardava que lhe desvendassem a verdade. 

ninguém de seu trabalho foi prestigiar o lançamento, porque ninguém sabia que fernando escrevia livros de filosofia. na verdade, a edição foi custeada pelo próprio, e na festa de lançamento oferecida pelos editores foram alguns colegas do tempo da faculdade de filosofia, sua mãe, dona eunice, e david, seu amigo de infância.

quando todos foram embora, ficaram só david e sua mãe com ele, tomando cerveja e discutindo o lançamento em um botequim à luz do luar.

- achei aquela menina uma abusada, disse david.

- que menina?, quis saber fernando.

- aquela de decote.

- a pamela? 

fernando não podia acreditar, já que pamala era como uma heroína de romance antigo. apesar de seus defeitos, era virtuosa. 

- o que ela fez?, quis saber a mãe, a senhora eunice. tinha cabelos brancos e usava óculos fundo de garrafa. enquanto os demais sentavam em cadeiras de metal, ela repousava, sob mantas, em sua cadeira motorizada. 

- ela me perguntou o seguinte...

David olha para Fernando e para a senhora Eunice. Em seu rosto, uma expressão de perturbação. Depois de alguma hesitação, disse:

- Ela me perguntou: "Você tem medo do castelo?"

A voz de David saiu trêmula. Fernando franziu a testa, confuso.

- Medo do castelo? Que castelo?, quis saber. 

Sua mãe iria responder, mas foi interrompida pelo barulho de uma máquina de escrever, misturando-se com os sussurros quase inaudíveis de uma voz feminina. Atrás deles, haviam se sentado uma mulher e um homem barbudo. Senhora Eunice reparou no tipo desagradável do advogado, que fumava maconha, e embora irritada, se controlou. Ajustou os óculos para disfarçar e olhou para seu filho com uma expressão séria.

- Castelos não deveriam causar medo, Fernando, mas fascinação. Você não lembra de quando fomos para Disneylândia? Você deixou sua foto com o Pateta no seu porta-retratos até depois de grande. 

Depos olhou para David e tentou defender Pamela: 

- Talvez ela esteja falando sobre algo mais profundo, algo dentro de você.

David olha em volta, como se esperando que algo ou alguém apareça. As luzes piscam brevemente e, perto de um poste sem luz, uma figura indistinta surge, observando-os silenciosamente. Ela se aproxima: é Pamela, de vestido longo e vitoriano, contrastando com o ambiente suburbano. Sua presença é ao mesmo tempo reconfortante e perturbadora.

- Acho que David não entendeu o que eu quis dizer, não é? , diz Pamela, amigável.  David exibe uma expressão de irritação e medo. E com a graça de uma deusa renascida das cinzas do tempo, sentou-se à mesa, com seus movimentos lembrando os passos de uma dança antiga.

Ao avistar a mulher da outra mesa, Pamela exclamou:

- Morgana! Não esperava te ver aqui, após tantos anos.

Os olhos de Morgana brilharam com o reconhecimento. Pamela, envolta em memórias, começou a contar uma história antiga:

- Lembra-se daquela viagem, quando éramos adolescentes, puras e ingênuas, estudantes daquela rígida escola católica? Durante as férias, nosso ônibus quebrou no meio da floresta amazônica. Perdidas e desesperadas, avistamos uma cabana, o único sinal de vida na vastidão verde.

Os olhos dos presentes se arregalaram, atraídos pelo relato como por uma tapeçaria rica em detalhes. Pamela prosseguiu:

- Naquela cabana, encontramos um velho decrépito, um filósofo existencialista chamado Azevedo Diniz. Ele era uma figura sombria, à beira da morte. Deitado imóvel em seu catre, nos observava com seu olhar especulativo. Era aleijado desde um acidente com um cavalo. Uma sobrinha bondosa, Clarissa Plínio, lhe dava banho e comida. Suas opiniões eram controversas: ele defendia o suicídio como um direito e acreditava na legitimidade filosófica da violência e da escravidão. O velho, com voz fraca mas penetrante, contou-nos que, após seu acidente de cavalo, adquirira o dom da memória absoluta. Podia lembrar-se de cada detalhe de sua vida, desde o menor suspiro até o mais insignificante olhar. Sem conseguir dormir, devido ao esforço constante dos nervos, enquanto contava carneirinhos, depois do número setecentos e cinquenta e oito, se entediou e começou a montar um sistema numérico particular, em que cada numeral, correspondia ao nome de um animal. Com o tempo, os animais lhe pareceram muito simples, e para cada número, passou a compor um verso dedicado a uma espécie distinta. Estava já no número dois mil e trinta e cinco quando, antes das onze horas da noite, novamente se entediou, e desde então estava começando a se dedicar à composição de aforismos filosóficos, e que, segundo constava sua memória, já estava no número mil e um quando batemos em sua porta. Ficamos todas encantadas por essas palavras. Ouviríamos sua prosa para sempre, se Clarissa não entrasse com o telefone e o interrompesse, dizendo que a linha estava sem funcionar. Sem comunicação, fomos forçadas a passar a noite na propriedade do filósofo. A cabana era pequena, mas repleta de caixas de papelão fechadas com fita adesiva. E quando o velho finalmente dormiu, dois dias depois, você abriu uma delas. Lembro que dentro estava, junto de algumas revistas esotéricas, sobre drogas, espiritualidade e magia, um frasco de fio dental e romances do século XIX, uma pequena estatueta de um jaguar, esculpida em madeira negra e com olhos de pedra de jade.

Nesse momento, Mandrake, com sorriso fácil e olhos calculistas, se aproximou. Se apresentou a Pamela como advogado, inclinando-se em uma reverência  teatral.

— Que história fascinante, minha querida Pamela. Permitam-me juntar-me a vocês, disse ele, puxando uma cadeira sem esperar resposta. Morgana, sem ser convidada, também se juntou a eles. 

Conforme a noite avançava, os copos enchiam e esvaziavam rapidamente. O álcool soltava línguas e inibia reservas. Mandrake passou a lançar olhares insinuantes para Pamela, sua voz carregada de charme calculado.

— Você tem um ar de mistério que me intriga, Pamela. Contar-me-ia mais sobre suas aventuras? — disse, com a mão ligeiramente tocando a dela sobre a mesa.

Pamela sorriu com um misto de diversão e desdém. Mandrake, conforme a noite se aprofundava, ele se tornava mais ousado. Tentou beijá-la, inclinando-se para ela com uma confiança arrogante. Pamela, recusou, afastando-se delicadamente.

— Não esta noite, Mandrake, disse ela, seus olhos brilhando com uma combinação de diversão e aviso. Morgana, que até então havia escutado em silêncio, de repente soltou uma risada sarcástica.

— Sempre a mesma história, não é, Pamela? Fazendo-se de misteriosa e especial — disse Morgana, seu tom carregado de irritação. — Talvez você devesse contar a eles como realmente foi.

Pamela a encarou, surpresa com a agressividade.

— E o que exatamente você acha que eu deveria contar, Morgana?, respondeu Pâmela, sua voz agora fria.

— Como você sempre gosta de ser o centro das atenções, inventando histórias — retrucou Morgana. — Talvez você devesse contar a verdade sobre o que aconteceu naquela noite na cabana.

— Você está bêbada, Morgana — disse Pamela, tentando manter a calma. — Não sabe do que está falando.

— Estou falando que você sempre foi uma mentirosa! — gritou Morgana. — E uma puta também!

A tensão na mesa aumentou, e os olhares se voltaram para Mandrake, que assistia à cena com um sorriso divertido, apreciando o drama que se desenrolava.

— Chega, Morgana — disse Pamela, levantando-se. — Se você não pode se comportar, é melhor ir embora.

Morgana se levantou também, tropeçando ligeiramente nos próprios pés.

— Não vou a lugar nenhum. E você, sua vadia, devia aprender a ser honesta.

Pamela respirou fundo, tentando controlar a raiva.

— Foi por insistência de Leila que abrimos as caixas — disse Pamela. Ela sempre teve essa curiosidade insaciável, um desejo de desvendar segredos. E naquela noite, na cabana do velho filósofo, ela nos convenceu de que não havia nada a temer.

Enquanto o álcool continuava a fluir e as conversas ao redor da mesa se desenrolavam, a noite se desdobrava em um emaranhado de desentendimentos e confissões. A questão do castelo, que havia surgido antes como uma referência velada, agora voltava à tona de maneira mais direta.

— Pamela — começou David, sua voz carregada de frustração. — Você falou sobre aquela cabana e o que encontramos lá. Mas e quanto ao castelo? O que você realmente acha disso?

Pamela, que estava tentando se recompor depois do altercado com Morgana, olhou para David com uma mistura de cansaço e desafio.

— O castelo? — repetiu Pamela, ajustando-se na cadeira. — O que você quer saber sobre o castelo?

David parecia estar se preparando para um confronto.

— Não é o castelo em si que me intriga, mas o que ele representa. É a ideia de um poder que está sempre fora de alcance, um controle invisível que influencia nossas vidas sem que possamos realmente vê-lo.

Fernando, observando a cena, percebeu que a conversa estava voltando a temas que lhe eram inconvenientes.  Fez um gesto de irritação, seus olhos brilhando com uma centelha de descontentamento.

— Você realmente acha que está tudo bem, Pamela? Não estamos falando de um castelo metafórico, estamos lidando com uma realidade material objetiva. Não seja uma idealista.

Pouco depois das três da manhã, Lucrécia chegou, de braços dados com Mallarmé, e se aproximou da mesa.

— Fernando, querido! — exclamou, indo diretamente em sua direção. Ela o cumprimentou com um beijo suave na bochecha. — Lembra de mim? Aquela noite na festa? Você estava tão relaxado com óxido nitroso, e acabamos fumando um baseado enquanto discutíamos um filme que você amava. Foi inesquecível!

Ela caiu na gargalhada. Fernando sorriu timidamente. 

— Claro, Lucrécia. Como poderia esquecer?

Lucrécia lançou um olhar a Mallarmé, que estava um passo atrás. Com um aceno, ela e Mallarmé se juntaram ao grupo na mesa, puxando cadeiras para se acomodar entre as pessoas.

— Parece que estão discutindo o caso do castelo — comentou Lucrécia, olhando para os rostos ao redor da mesa com curiosidade. 

— Ah, o castelo — disse Mallarmé, com um sorriso — É sempre fascinante discutir esses conceitos abstratos. Eles têm a capacidade de nos revelar tanto sobre nós mesmos quanto sobre o mundo ao nosso redor.

David não gostava do tipo de Mallarmé. Foi o primeiro a ir embora, alegando já estar quase de manhã. A noite prosseguiu até pouco depois das sete horas da manhã, quando o garçom disse que o bar ia fechar e recolheu as mesas e cadeiras.

Fernando Homem acordou no dia seguinte com a cabeça cansada depois de tanta cerveja, noites mergulhado em discussões filosóficas online e papéis que carimbava repetidamente no escritório. Foi, sem saber porque, ao Museu de História Natural. O local, envolto em penumbras, era um templo para os segredos da natureza, e naquela noite ele estava prestes a descobrir um segredo ainda mais profundo.

Mallarmé estava lá. Se interessava profundamente pela filosofia empirista britânica do século XIX, mas não por razões puramente acadêmicas. Na verdade, ele estava envolvido na defesa de um fantasma de um filósofo anglo-paquistanês do século XIX, chamado Ashraf Anwar

Ashraf Anwar era um filósofo cujas ideias tinham sido marginalizadas em vida, mas que só agora sua obra encontrava a justiça de boas leituras. Ele acreditava que suas contribuições para a filosofia empirista haviam sido injustamente esquecidas e distorcidas. Mallarmé, intrigado pela causa, aceitou defender Ashraf Anwar.

Mallarmé e Fernando foram juntos até a sala de exposições de fósseis, cercados pelos vestígios petrificados de eras passadas. Ficaram em silêncio. Mallarmé estava absorto em um manuscrito, seus olhos brilhando com uma luz quase sobrenatural. Fernando fingindo observar os ossos de uma enorme preguiça. As respirações estavam pesadas. Em algum momento, Fernando ajoelhou-se diante de Mallarmé e chupou seu pau. 

Depois daquele encontro, Fernando passou a ver o mundo de maneira diferente. É isso um homossexual verdadeiro, aquele cuja vida sofre uma reviravolta incrível por fazer sexo com um homem? O fato era que Fernando passou a se encontrar com Mallarmé. Descobriu que o julgamento de Ashraf Anwar seria realizado logo mais, no tempo da eternidade. 

Certa noite, enquanto jantavam comida chinesa, Mallarmé explicou para Fernando que via a empiria não apenas como a própria essência do ser, mas um corpo de doutrina para que se construam histórias sobre a essência do ser. Para ele, os filósofos britânicos, como John Locke e David Hume, ofereciam uma visão ou observação da natureza como realidade objetiva.

— A natureza, as florestas e relevos, os climas e impressões não são apenas um cenário para a experiência humana, Fernando — explicava Mallarmé. — Ela é a origem do conhecimento, mas como a linha é a origem do tecido. Cada folha, cada pedra, cada ser vivente é uma manifestação não da verdade, mas das histórias que conhecem sobre a verdade: as histórias da ciência natural.

Fernando, agora mais do que nunca, estava determinado a seguir os passos de Mallarmé. Juntos, eles mergulharam nos escritos que passaram a categorizar como "naturalistas", buscando entender como a observação meticulosa da natureza se tornou a verdade mais profundas da existência. Mallarmé usava esses insights para construir a defesa de Ashraf Anwar, buscando provar que suas contribuições filosóficas eram fundamentais e mereciam reconhecimento.

sábado, 22 de junho de 2024

ai, minha fama de maldito, 2

O after na casa de Pedro Fernandes estava uma bosta. Gente fumando maconha pelos cantos e fazendo aquela média com todo mundo. Artifício emocional, amizade por cortesia. Claro, como o verme que fui treinado a ser, também comia as carnes daquele enorme corpo social. Era todos sorrisos e, vez ou outra, falava alguma piada espirituosa. 

Na maior parte do tempo prestava atenção nas mulheres, como se esperasse qualquer sinal receptivo para começar um assunto que precipitasse na direção de sua intimidade. Um sorriso, uma palavra lisonjeira, um olhar ou sacudir de cabelos, tudo poderia ser um indício de que a fêmea deseja acasalar. Ah, mas o corpo social! Como é hábil em nos aproximar por motivos fúteis - os jogos de sorrisos e comentários divertidos, o mexerico sobre a vida alheia, as discussões estúpidas sobre o conteúdo pútrido que a indústria cultural nos serve de alimento... tudo isso me enoja... -; próximos por essas futilidades que somente servem para reprimir nossos impulsos selvagens e violentos, de amor e de ódio. Espreitava cada um, como se tivessem uma intenção oculta a ser desvendada... Os machos sabia que procuravam, de forma insistente e estúpida, um corpo belo para despojar as energias acumuladas durante toda a madrugada por estímulos sensoriais desregrados. E as mulheres? Seus corpos sempre reservam um quê de enigma, desde que era criancinha. Que queriam? Espiava nos rosto delas, no movimento suave do corpo, na forma com que se arrumavam e se portavam, tanto cálculo, tanta razão, mas para quê? Qual a intenção dominava a profundeza de suas máscaras? Queriam também, simplesmente, acasalar? E se queriam, por que simplesmente não se entregar de uma vez, se sabiam que todos os homens estavam a espreita? É a velha história do histerismo, não é? Desejos reprimidos, desejos que aprenderam a reprimir, e que refluem nos sintomas mais doentio... 

Me recrimino, é claro que me recrimino, por pensar como homem. Sinto culpa, a despeito de tudo que desejo. A culpa é a fábrica de um novo corpo, me expliquei, para me consolar dessas energias que imponho contra mim mesmo. O que meu pensamento de homem oculta sobre a mulher? 

Não queria pensar em mais nada. Estava cansado. Queria chegar em casa, bater uma punheta assistindo pornografia e esquecer de tudo que meu corpo me ensinou. Estava sentado em um canto afastado, pedindo um moto-táxi, quando Pedro Antunes se aproximou.

- Já vai, meu amigo?

- Está na minha hora, respondi sem tirar os olhos do celular.

Pedro Antunes olhou para um lado e para o outro, como se quisesse verificar que estávamos sozinhos. Se aproximou de mim e, mais baixo, falou em um tom de voz cuja gravidade me surpreendeu e fez com que levantasse os olhos:

- Poderia falar brevemente com você?

- Sobre?

- É um assunto delicado.

- Pode falar. 

- Você é advogado, não é? 

Imaginava que viria uma série de perguntas a respeito de instruções judiciais, coisa que já estava acostumado desde que me tornara, a uma década atrás, um estudante de direito. Não fiz questão de esconder o suspiro impaciente que soltei.

- O que você quer saber?

- Não é saber... Preciso contratar seus serviços...

- Meus serviços? Nunca exerci, Pedro. Sequer tenho carteirinha da ordem.

- É um caso especial. 

E Pedro Antunes passou ao estranho relato de como havia sido processado pelo fantasma de um filósofo inglês do século XIX. 







ai, minha fama de maldito, 1

acordei as duas da tarde, de ressaca e de roupa de ontem. fui andando já na direção do bar. almocei um prato feito de fígado com batata frita enquanto bebia uma coca zero com gelo. na televisão passava jogo da liga dos campeões da europa: barcelona e borussia dortmund. o garçom, um paraibano de uns trinta e poucos anos chamado robson, viu que eu mirava a televisão e disse sem olhar para mim, o sotaque carregado, que o primeiro jogo foi dois a zero pro borussia dortmund. ficamos batendo papo sobre futebol até terminar de almoçar. era um bom sujeito, esse robson. trabalhava desde sempre no bar. às vezes deixava uma gorjeta de umas cinco pratas pra ele. e ele, como se fosse parte de um acordo, caprichava nas doses que sempre tomava antes de ir. naquele dia tomei campari com água tônica, estava de ressaca. 

saí dali e subi até a boca para comprar uns pinos de pó, os meus haviam acabado ontem, mas ainda tinha nariz para cheirar essa noite. fui para casa e fiquei lendo por umas duas horas sobre a biografia de frederich nietzsche. filho de pastor que morreu quando ele ainda era criança nietzsche foi criado pela mãe. a relação com ela era problemática. talvez isso explique a visão misógina de nietzsche. dizem que amou mulheres: a verdade é que somente amou-as como objetos. para todos efeitos, nietzsche era homossexual. e monogâmico. o único amor de sua vida foi seu velho professor de filologia. um verdadeiro pai substituto, que colocou nietzsche nos trilhos da vida. arranjou para ele uma entrevista na universidade de basel, além do diploma de filosofia necessário para que fosse admitido. um verdadeiro pai, que impõe ao filho uma direção na vida. impede que seja um vagabundo, pra cima e pra baixo, sem aspiração fixa. nietzsche, pelo que dizem, viveu um curto período boêmio, para depois pateticamente se converter a um ideal abstêmio. dizia ser por conta de seu estômago, mas a verdade é que nietzsche tinha a vontade fraca. tão logo enxergou a sombra do pai substituto que sempre procurou, tão logo fez questão de entrar na linha. até quis lutar na guerra para honrar seu país. foi um sujeito patético. a sua obsessão com lou salomé foi apenas mais um documento de sua patetice. a primeira vez que uma mulher inteligente lhe deu atenção, uma mulher que não se interessava somente por solos de piano e bailes no jantar, e caiu de quatro. perseguiu salomé por toda europa, até que ela decidiu se casar. foi esse homem que pateticamente escreveu uma filosofia em que se proclamava senhor de si. sua nobreza era uma tremenda extravagância de sua imaginação. compensação de suas faltas tão latentes como homem. nunca se casou, é claro, assim como nunca realizou suas fantasias urânicas gregas (alguém tão apaixonado pela vida grega como nitzsche era somente pode se desviar da pederastia por muita repressão). contei essas e outras coisas para justina enquanto bebiamos em um bar da lapa. ela ouviu e fez alguns apontamentos sobre minha psicanálise excessivamente falocêntrica. dei de ombros e me justifiquei dizendo que para um homem falocêntrico somente uma psicanálise falocêntrica poderia dar conta. bebemos algumas garrafas até que fomos para seu apartamento no flamengo. 

assim que entramos apertei ela pelo pescoço com força. atirei seu corpo frágil de boneca no sofá e esfreguei meu pau na sua cara. com cara de assustada, ela tirou ele da calça e começou a chupar. enfiei ele fundo em sua garganta e ela cuspiu, ofegante, a saliva escorrendo no chão. beijei ela na boca.

transamos por umas horas, tomamos banho e saímos para jantar com alguns amigos. eram, no caso, dois escritores detestáveis, que no entanto estava tentando me aproximar. para tentar emplacar minha carreira literária. luzia light era uma transexual alta e arrogante que escrevia poesia de quatro versos. não sabia se as pessoas fingiam gostar ou se realmente gostavam daquilo. se gostavam, pensava, é porque poesia se tornou um tipo de decoração ou coisa parecida. nossa sensibilidade entupida de tanta merda não consegue sentir mais nada e se satisfaz quando encontra o jogo de palavras mais estúpido. e luzia light, além de má poetisa, também era desagradável. não deixava ninguém falar. adorava ser o centro das atenções. com ela na mesa sempre estávamos a falar de sua vida ou de seus interesses. ela ditava o rumo da conversa, como uma apresentadora ruim de podcast que não deixa seu convidado seguir o curso de seus pensamentos. e o pior é que luzia light era psicanalista. não conseguia conceber como seria vê-la calada, auscultando o inconsciente de seus pacientes, contendo suas reações, calculando os estímulos que produziria. a outra literata que estava com a gente se chamava marta terra. admito que sua arte não me desagradava tanto. era somente medíocre, como costuma ser medíocre a arte que transforma a pornografia e o choque em finalidade. formada na academia de belas artes, era também pintora, e havia sido adestrada em certo discurso deleuziano sobre o corpo e os afetos que trazia a tona sempre que possível, fosse porque estava sempre lendo ao "anti-édipo" (fazia uns dois anos que postava foto lendo-o na praia), fosse porque tudo que falávamos, por algum motivo, parecia afim da filosofia deleuziana, coisa que demostra ou a pobreza de nossos temas ou a magnitude de deleuze. 

aguentei com disciplina monástica quase duas horas sem cheirar pó. pedi licença, fui até o banheiro e dei uma rajada generosa. limpei com cuidado o nariz, não queria ser percebido. luzia light já havia me pedido um teco e eu disse que estava fraco. ela me olhou atravessado, mas disfarçou: sorriu, disse estar na fissura e mudou o assunto. 

voltei e estavam discutindo sobre comprar pó e ir para uma festinha, e daí deduzi que havia dado pinta que iria cheirar. sempre que um viciado pede para ir ao banheiro desconfiam que ele irá cheirar. de qualquer forma, ligaram para um dealer e em menos de uma hora estavamos indo para a festa abastecido de pó e ketamina. entramos de graça (marta terra era amiga da produção) e queimamos nossa onda por um tempo. estava, como sempre, de óculos escuros. é minha forma de reduzir a ansiedade social que esses lugares lotados me causam. odeio sentir que sou observado. os óculos me produzem a ilusão de que estou invisível. por causa dos óculos escuros, não percebi a aproximação de pedro antunes. pedro antunes era um velho conhecido. um escritor fracassado de quarenta e poucos anos, que no entanto fingia estar na flor da idade. só andava com gente vinte anos mais nova que ele. publicou alguns romances, era conhecido entre os editores da cidade, e isso era suficiente para os aspirantes a escritores lamberem seus pés. como estava tentando ajudar minha carreira, decidi ser simpático com pedro antunes. ele fedia a cigarro e suas pílulas estavam do tamanho de moedas. me abraçou como se fossemos bons amigos. conversamos e ele me convidou para o after no seu apartamento.

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