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terça-feira, 14 de janeiro de 2025

aforismos sobre o prazer

 1. se o princípio do prazer já foi considerado o guardião da vida, a experiência da dependência química demonstra sem dar margem para dúvidas o poder mortífero do prazer.

2. a psicologia mecanicista muito habilmente confundiu a produção libidinal com simples movimentos de encher e esvaziar, como se o prazer fosse ou um gás que se acumula e depois estira, ou então, seu reverso, um estado de repouso absoluto, subitamente rompido por forças estrangeiras. mas, se como acreditamos, existe alguma verdade nessa mecânica libidinal (freud já havia falado sobre como os saculejos de um trem ou ônibus são capazes de estimular sexualmente seus passageiros), o prazer no entanto não parece nascer nem de um aumento na excitação (orgasmo), e nem de seu oposto (nirvana), muito embora possa ser produzido pelos dois. seria então mais conveniente ver o prazer não como um movimento unidirecional, mas sim como um ritmo, uma cadência coreografada, em que o prazer se produz a partir de cortes e fluxos sucessivos.

3. freud escreve que o nirvana representa a tendência do ser vivo à morte; o prazer e a libido, representam a sua tendência à vida; e ainda, a realidade representa as influências do meio externo sobre o ser. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

A DEPENDÊNCIA FAMILIAR E A MAIS-VALIA LIBIDINAL

Sempre nos ensinam que os nossos pais são guerreiros, e tal qual os exércitos morrem pelo direito do povo, realizam verdadeiros sacrifícios em nosso benefício. Mais que nossos pais, somente Deus, ao entregar o corpo de seu filho à justiça, conheceu tamanha abnegação. Nossos pais, é o que nos dizem o tempo todo, nos amam mais do que tudo. 

Quando iremos passar a falar da verdadeira mais-valia libidinal que essas mitologias amorosas jamais mencionam? Os pais proíbem o prazer dos filhos como forma de manter o equilíbrio libidinal que lhe é favorável. Alienam os filhos de seus próprios desejos para desacelerar a entropia daquele modo de vida e assegurar o o ecossistema favorável ao seu próprio desejo. 

O poder imperial do adulto contra a criança, a violência amorosa que dedica-se à prole, é no entanto apenas uma das técnicas para a extração dessa mais-valia. A repressão da sexualidade infantil é somente um ponto de todo um vasto circuito por onde se organiza o gozo cósmico. Espero voltar ao assunto da economia sexual em um próximo post para esclarecer como a sociedade é um verdadeiro corpo, uma extensão sensível que integra fisicamente a vida.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

outro realista

a raiz de muita estupidez remete ao conceito darwinista-liberal de sobrevivência do mais forte. uma de suas formulações está na concepção da virtude enquanto adaptação psicológica à realidade dos fatos. os fracos, diria esse pequeno darwinista da subjetividade, são aqueles que falsificam o real, elaboram sonhos de fuga, se entregam às fantasias desregradas, ao sexo, ao vício, aos jogos, e tudo aquilo que lhe dá prazer e que ocupa o tempo que, em sua imaginação que não ultrapassa a profundidade de um pires, o homem realista deveria deveria fazer com comedimento, com moderação , com cálculo, com economia. o pobre miserável vive em greve de fome, e quando come, é aos alimentos mais pobres. seu paladar é de gente que prefere hambúrguer de fast food a um bom jantar. para esse gênero de psicólogo, que se põe na a ponta dos pés para se passar gigante, essa é a única forma de nutrição. o pobre ignorante, que desdenha daquilo que não consegue ter. a ascese profunda é seu único cardápio. assim foi esse pobrezinho desnutrido criado. vive em greve de fome, talvez, como o personagem de kafka, por nunca ter descoberto nenhum alimento que lhe agradasse. entregue à baixeza da realidade, aprendeu a se deliciar com o gostinho de seu estômago a roncar, com a dor pela gastrite que sobe pela sua garganta. enquanto subexiste com o fruto do trabalho burguês e o sexo católico para a reprodução, olha de canto de olho esses gulosos e embriagados incompreensíveis, que vivem muito e morrem cedo, que não se contentam com a magra carne da realidade, seca a saliva que escorre da boca e diz para esposa (que detesta) que precisa ir ao banheiro realizar suas necessidades.

o utilitarista e o hedonista

do utilitarismo, pelo fato de, como toda construção ética, buscar a felicidade, facilmente se confunde com o que se chama, vagamente, de hedonismo, mas somente pela confusão que toda mente utilitária, fundada na ascese e na economia, faz entre felicidade e prazer. essa é a convergência fatal entre filosofia epicurista e utilitarista: o gesto ascético, o controle do desregramento como imperativo de felicidade. o hedonismo verdadeiro, contudo, possui sempre um quê de trágico, um quê de dionisíaco, e mesmo de sádico, em que toda economia somente pode ser justificada perante o acúmulo de um dispêndio ainda mais imperioso. é a moral de marques de sade: o gozo mais intenso somente é possível por meio do cálculo e disciplina preliminar. nisto, talvez, separa-se dois gêneros de hedonista: o vicioso, ou ainda, o viciado, preso na imediatez, na repetição frenética, que acaba por esvaziar todo o prazer lento da espera e da conquista, e aquele hedonista sádico, que faz da demora, da cerimônia e expectativa um meio não de adiar o orgasmo, mas de intensificá-lo. e se o hedonista sádico se assemelha ao utilitário pelo vício na economia, no controle sobre si, é preciso distingui-los pelos seus fins, pelas diferentes felicidades de cada um: se o sádico hedonista antevê e pratica, pela elasticidade e demora do meio, seu desejado gozo, o utilitário como que transforma o meio em fim: seu orgasmo é o acúmulo infinito, o gozo de jamais romper a economia em dispêndio: nesta retenção infinita que justifica toda sua vida. e quando seu corpo, em algum ponto, não tolera tamanha repressão, se ceder, será com dor. todo utilitarista, se vier a ser um hedonista, será para se arrepender, mesmo que para se arrepender mil vezes do prazer que nega outras mil desejar. daí a singular confusão do utilitarismo entre felicidade e prazer: sua felicidade está justamente em negar, pelo culto da utilidade, o dispêndio que tanto lhe daria prazer

sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...