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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

ARREBOL QUADRADO 101. DUAS MULHERES FALANDO DE UMA IRMÃ E DE UM NAMORADO

O dia havia esgotado a constituição física de Nina Rodrigues. Apagou as duas lamparinas que haviam acesas sobre a escrivaninha, deitou sobre o chão empoeirado de seu laboratório, fechou os olhos e alongou a base da coluna. Sentia muita dor nessa região, depois das muitas horas passadas sobre os livros, jornais e cartas. Sem falar nas posições pouco ergonômicas que mantinha no curso de seus experimentos científicos. O resultado não podia ser outro fora aquela série lesão por esforço repetitivo. A causa era muito simples, pensava Nina Rodrigues, e não varia de ser outra coisa fora um excesso de força feita sobre os músculos da região. O peso de sua enorme coluna vertebral, além de toda a gordura acumulada nos fartos seios de fêmea, que despencavam sobre seu abdômen e aumentavam consideravelmente a força feita contra a sua musculatura. 

Enquanto Nina Rodrigues pensava em possíveis exercícios destinados ao fortalecimento da constituição feminina, a porta do laboratório se abriu. Era a criada, Maurília, carregando uma vela e rompendo a escuridão. 

- Oh, minha senhora, já estava indo realizar minhas higienes para ir dormir, conforme a senhora me ensinou ser o correto para a minha saúde. Estava lavando meu rosto com aquelas poções, e tomando os remédios que me instruiu. Ainda não senti nenhuma melhora. Quer dizer, acho que tenho acordada com mais disposição, mas mesmo assim. É que minha cabeça anda lá na minha terra. Recebi notícias de que minha mãe adoeceu e que pode ir dessa para melhor.

- Que houve com ela, Maurília? Adoeceu simplesmente? Ninguém adoece assim, simplesmente, sem causa alguma. Sua mãe não era velha, era?

- Tem menos de trinta anos, senhora Nina. 

- E sua mãe é bem cuidada?

- Até que é, o senhor gosta muito dela por conta das suas artes de cozinha. A sinhá também gosta de mantê-la por perto, para que ouça seus exercícios ao piano. Como vocês sinhás gostam de tocar ao piano. Onde está seu piano, senhora Nina?

- Não tenho piano.

- Não aprendeu a tocar piano quando menina?

- Aprendi, mas nunca fui muito boa. Minha irmã era quem tocava o piano. Nasci da mesma célula que Lira, mas somos completamente oposta. Ela somente se dedicava às coisas que lhe eram espontâneas. Tocava o piano porque nasceu sabendo tocar piano. Mamãe lhe dizia para fazer isso, e ela fazia, porque era tudo natural para Lira. Eu, no entanto, contrariava todos os desejos de minha família, porque tudo que desejavam era que eu fosse outra pessoa que nem eu. Sou a ovelha negra, Maurília. Não toco o piano. 

- Mas não gosta das canções? Elas são tão bonitas. Outro dia aquele violeiro, que anda para cima e para baixo cantando sobre a vida alheia, e a quem admiram o talento de seu espírito afiado e veloz, que inventa os ditos no mesmo momento que canta. Tudo de improviso, senhora Nina. 

- E a voz, como é?

- É divina, minha senhora!

- E de corpo, como é?

- Ele é assim, assim. Não é muito ajeitado, mas é porque é pobre. Se tivesse dinheiro iria consertar os dentes. 

- Qual o nome dele? 

- Damião Experiente. Porque dizem que trabalhava antes como faroleiro, e que era o mais velho de toda a região portuária. No entanto, aos trinta e poucos deu-se com a vida isolada em alto mar. Desentendimento com um colega de trabalho também. Saiu do farol, entregou o cargo público e passou a viver das troças e pilhérias que faz com a viola. 

- E como sabe um faroleiro cantar e tocar viola assim?

- O tempo que passou no farol, que segundo me contou, era infinito, somente passava com a companhia de seu violão.

- Ele te contou? Então já estão conversando.

- Assim, assim. 

- Me conte, Maurília. O que planeja fazer com esse homem?

Ela riu-se toda e respondeu:

- Nada, minha senhora. 

- Nadinha?

E Nina então caiu na gargalhada. Maurília, que na verdade pensava esse tempo todo na mãe, também riu, mas talvez dissimulasse. Seguiu um silêncio desconfortável, em que Nina Rodrigues sentiu as costas doerem e Maurília pensou na morte de sua mãe. 

A campainha tocou. 

- Eu atendo!, disse Maurília, e imediatamente saiu da sala. 

Nina Rodrigues foi até a mesa, arrumar os livros e os papéis para que pudesse receber a inesperada visita. Enquanto marcava os livros e os devolvia para a estante, passou os olhos no relógio e verificou que já eram mais de duas da manhã. Quem seria a essa hora?, pensou, enquanto devolvia as penas aos seus tinteiros. Ouviu o barulho de passos e correu para o espelho, imaginando que seu cabelo estaria desarrumado. Maurília disse para ela que era o senhor Azevedo Diniz com uma pequena comitiva composta por um jovem seminarista, uma senhorita com ares da vida, e um estrangeiro ilustre mas que ela desconhecia. Nina Rodrigues ajeitou suas vestes e mandou que deixasse eles entrarem.


sábado, 3 de agosto de 2024

17. a iniciação de lola baruch

o fracasso condena, mas liberta, disseram a greta gothe, uma putinha austríaca de cabelos escuros que veio para buenos aires com um marido velho e violento. 

o marido morreu de pneumonia logo depois de ter chegado, o que foi bom: greta gothe era espancada repetidamente pelo marido bêbado fedido de vinho. como tinha boa educação, ela passou a dar aulas para a alta sociedade de buenos aires: de alemão e de piano. não esperava, no entanto, que com a grande guerra viessem para buenos aires tantos professores muito mais aptos, fosse no ofício musical, fosse na arte do alemão. apesar de uma moça bem-educada, ela não era exatamente profissional em nada: ensinava para aqueles latino-americanos, impressionados com qualquer coisa de europeu, apenas os rudimentos que a educação mundana havia lhe ensinado para viver em uma boa família. 

as mulheres nesse tempo eram modeladas para serem esposas e donas de casa: para parir e alegrar o ambiente doméstico. digo para parir porque o sexo, para elas, deveria ser estritamente biológico. as artistas do sexo eram mesmo as putas, que os maridos, na calada da noite, se engraçavam. greta gothe primeiro não sabia foder: tudo que era era uma austríaca de trinta e dois anos, viúva de mamas caídas de cadela prenha depois de ter dado a luz ao primeiro filho. se sentia velha e indesejada no mercado matrimonial. vivia com os últimos recursos deixado pelo marido, e já pressentia a profunda carestia. 

vir para país miserável desse para passar fome, pensava no seu íntimo, enquanto dava de mamar para o pequenino hans, que devorava o leite espesso de seu seio como se pressentisse se tratar da última ceia. em breve, seu peito secaria e nem ao filho teria o que dar de comer. já não era humilhante ela própria ter que dar leite para o próprio filho? céus, não esperava vir para um país com essa moeda miserável para não poder nem mesmo pagar uma índia pra amamentar meu filho, ela pensava em seu alemão. seu pensar em alemão era seu elo restante com sua terra natal: pela boca, falava somente com seu espanhol desajeitado. pelas mãos, não escrevia mais para o velho continente, porque tinha vergonha de contar de sua situação. os parentes estavam mortos, e não tinha coragem de pedir auxílio para mais ninguém desde que fora humilhada pela família do marido, que nunca aceitou o casamento dos dois - todos imaginavam que greta gothe era uma vigarista pequeno-burguesa em busca de herança, e quem diria, depois de ter aceitado ir para esse fim de mundo, o marido deixou-lhe menos de dois mil pesos e uma barriga emprenhada com seus genes de judeu avarento -. 

olhava o pequeno hans sugar as energias de seu seio e não sabia se devia amá-lo por ser fruto da sua carne, sua única família, ou se devia odiá-lo por ser mais peso preso ao já insustentável peso do seu ser. outro dia leu no jornal sobre um bebê encontrado morto em uma lata de lixo e ocorreram em sua cabeças pensamentos criminosos. matar aquela criança, seria delicioso... mas olhava os olhinhos de seu hans e sabia que seria incapaz, não seria? sim, seria incapaz de matar seu próprio filho, mas alguma coisa era preciso ser feita, algum limite precisava ser ultrapassado. não podia mais trabalhar como professora, tentou o emprego de secretária, mas não conseguiu encontrar nenhum. o desemprego, naquela buenos aires cheia de imigrantes italianos, estava enorme. greta gothe odiava o cheiro daqueles italianos chegando das fábricas para dormir na pensão claustrofóbica em que vivia desde que perdera o emprego na casa dos ocampo. a família de aristocratas parasitas, herdeiros de cargos públicos e instancias conquistadas à sangue dos índios, havia preferido contratar uma certa madame carrouges, uma francesa velha e com uma verruga na ponta do nariz, para instruir as crianças. a senhora ocampo não gostava de ter uma mulher jovem e bonita, mãe solteira e viúva, dentro de uma casa de família.

demitiram greta gothe com a desculpa de não desejarem ser confundidos com germanófilos: que os tempos de guerra implicavam em uma politização da vida cotidiana. lamento, ela disse, dissimulando uma carinha de tristeza, mas nesse tempos duros de guerra, precisamos nós, bons argentinos, reafirmar nossa ligação com nosso sangue, com nossa raça, com nossa herança latina. não podemos compactuar com um povo inassimilável em nossas terras, com a boa raça, reconheço, dos germânicos. aqui não é lugar para vocês, terminou por dizer e desde então nunca mais pisou na mansão dos ocampos. 

greta gothe portanto estaria arruinada se não aceitasse ir até onde sua moral não permitia: não matou seu filho, mas vendeu seu corpo. uma italiana de nome helena piglia, que morava na pensão e trabalhava de puta, disse que aquela fisionomia teutônica de greta gothe seria um espécime bem-vindo no bordel de madame rousseau. ela explicou que madame rousseau prezava sobretudo por um cardápio humano variado: se orgulhava de oferecer, em seus prostíbulos refinados, a maior variedade de raças e sub-raças. essa fisionomia austríaca de greta gothe seria certamente um artigo raro, ela insistia, toda vez que se reuniam. demorou certo tempo, é claro: as ideias morais precisam ser gradualmente dissolvidas, precisam ser submetidas a banhos de ácido constantes, até que se desfaça o plástico artificial que a civilização impôs sobre os órgãos animais, de instintos puros, irrestritos. 

greta gothe, quando chegou às mãos de madame rousseau, era uma mulher assustada, mas de constituição vulnerável, capaz de, por conta de sua precária situação material e psicológica, desfazer-se de todas razões morais cultivadas ao longo de sua formação, e se tornar aquilo que precisava se tornar para sobreviver na selva de velhas casinhas baixas sob o entardecer e de prédios em construção por operários italo-hispânicos que caracterizavam a vida urbana de buenos aires. a primeira vez que fez e recebeu o dinheiro por ter feito, se sentiu horrível, uma criminosa, mas madame rousseau, dotada nos ardis e nas palavras mais doces, tranquilizou-a como uma pantera velha amansa um filhote assustado diante da adrenalina de capturar a primeira presa. madame rousseau era uma professora talentosa, sabia disciplinar daquela forma que faz o pupilo acreditar que o condicionamento era na verdade libertação: e não era, afinal, a liberdade aquilo que greta gothe conquistava, ao libertar seu corpo do destino inerte de dona de casa? aprendeu aquilo que todo homem desejava: com sua língua, treinada nos segredos do amor físico, fazia os maridos esqueceram suas esposas. com o jeito que se movia, com a forma elegante e vagabunda com que falava, seduzia. era justo pagar essa nova liberdade com uma nova escravidão, concluiu certa vez, para tranquilizar a nova lola baruch. e repetiu à jovem , como se fosse de sua autoria: o fracasso condena, mas liberta, minha querida. essas palavras não pareceram ter repercussão no espírito de lola baruch, que silente se dirigiu à alcova. tirou a roupa extravagante com que fora vestida, e ficou somente de conjunto. tentava não pensar em nada, e até conseguia. então ouviu o barulho da porta. à meia-luz, não viu muito do que acontecia, e também fez questão de fechar os olhos. pena que não podia fechar o nariz e não sentir o cheiro de álcool barato, fechar os ouvidos e não sentir a voz baixa e indecente, fechar a pele e não sentir a baba escorrendo em seu pescoço, a barba mal-feita espetando seu queixo, o toque bruto machucando a pele sobre suas costela.

sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...