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sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

ARREBOL QUADRADO 100# um discurso do método a pretexto de um trauma de guerra (feat. garudadeity)

Começo a escrever essas memórias a partir de uma lembrança desprovida de qualquer sentido, vinda do recôndito inconsciente para o claro pensar, sem que eu pudesse dar com as razões precisas para seu aparecimento. Sei que todo pensamento possui uma causa, mas a verdade é que já me alongo demais - em breve preciso sair para tomar ao bonde; passo então ao relato, com a esperança de que ele possa esclarecer sobre as origens dessa erupção mnemônica improvável. 

Como a lava que a terra, em momentos mais importunos, desatina a cuspir de seu recôndito, me veio aquela maneira pausada e cheia de gírias com que Isaías Brasileiro me contava de suas memórias de guerra. 

Antes de passar ao seu discurso de imediato, prefiro fazer breve perfil desse sujeito. Sei que assim não se pode remediar a ausência daquela presença física, do encanto e magnetismo das histórias que saem da boca de seres orgânicos. O papel do livro é muito mais tedioso que o corpo a fazer marabales e gritar palavras belíssimas, mas como meu corpo foi terrivelmente reprimido pelos métodos terapêuticos dos doutores jesuítas, minha língua se paralisou e meu corpo se endureceu em posições predeterminadas pelos exercícios de Ignácio de Loyola.

Todos os rapazes, desde o tempo do colégio, gostavam de ler sobre a guerra. Na verdade, desde os tempos de minha infância, eles já brincavam de polícia e ladrão e, na falta de companhia, pegavam seus bonequinhos de soldados para reencenar as carnificinas da história. Claro que na cabeça da criança tudo é muito inocente, e nada sabem da realidade que um sargento legítimo, como era o caso de Isaías Brasileiro, era testemunha ocular. Ao ouvir Isaías falar-me sobre a realidade da guerra, ele parecia esperar que eu me apavorasse, mas me encantou a descrição da carnificina. Percebendo que estava me divertindo, Isaías foi se soltando, e passou ao relato da vez em que enfiaram uma granada no cu de um prisioneiro. Isaías apostou que dividia o paraguaio em dois; seu companheiro, Erick Von Struck, disse que o fêmur era mais resistente do que aço industrial, e que apesar da avaria causada em todos os órgãos, o corpo do paraguaio preservaria a sua organização contínua. Eles então tiraram o pino, correram para longe e dispararam um tiro na cabeça do prisioneiro. O impacto foi suave, quase não saiu sangue. O paraguaio então caiu, com leveza, ao chão, como se fosse uma pluma, mas com impacto suficiente para acionar o mecanismo da granada e fazer seu corpo ir pelos ares. Depois do estampido, Isaías e Erick se aproximaram, apertando suas carteiras contra os dedos, ansiosos para ver o resultado daquele joguete. Quando Erick alcançou o cadáver, gritou e dançou, cheio de alegria, ao ver que, apesar da barriga do paraguaio ter desaparecido por completo, restando apenas um monte volumoso de tripa e sangue, e que muitos ossos dos braços e pernas tivessem rebentado, a estrutura do corpo continuava de pé, com o crânio inclusive pendendo em um osso do pescoço. 

Claro que Isaías ficou contrariado, e buscou argumentar que os ossos partidos caracterizavam a segmentação de sua estrutura em dois, mas depois que o médico do regimento, o Dr. Fréderik, foi consultado, foi concluído que a separação da estrutura deveria ser aferida a partir da coluna que interligava o fêmur e os membros superiores. "Estando o fêmur, a coluna e o crânio reunidos em um mesmo sistema, mesmo as formas defeituosas de vida podem subexistir", e levou os dois sargentos para um tour em seu laboratório, em que fazia experiências eugênicas com corpos humanos. Passou a mostrar um espécime de sua coleção, "Calibã, o feioso". Não tinha nem pernas nem braços, e se arrastava como uma cobra. Ao ver o doutor, se atirou de sua cama e, com uma velocidade que impressionou os visitantes, correu até Fréderik e passou a se esfregar em suas pernas, como se tentasse subir no colo de seu criador. 

- Chega, Calibã! Chega!, Eu não tenho comida. Vá deitar ou terei que dar a você uma nova sessão de eletrochoques.

O monstro rapidamente murchou e correu para um canto embaixo da mesa. Isaías, contrariado, meteu a mão no bolso e deu a nota para seu companheiro.

Pedi então para que Isaías me contasse algo sobre os campos de batalhas. 

- O que, garoto?

- Qualquer coisa.

- Qualquer coisa o quê?

Fiquei constrangido.

- Sei lá... As armas? 

Ele então fez uma pausa, como se procurasse lembrar, e passou a me contar:

O motor a vapor cuspia redemoinhos sujos e quentes de fumaça no ar, misturando-se à fuligem e ao cheiro azedo de pólvora que infestava o vale. O céu, cinza e opaco, parecia afundar sobre as trincheiras. Homens, encolhidos contra as paredes de terra úmida, apertavam os fuzis com mãos trêmulas e olhos fundos. Suor escorrendo, respiração entrecortada, olhos úmidos, tremor involuntário dos lábios. E então, aquela aberração de ferro e vapor ergueu-se sobre eles.

        A máquina.

        Construção grotesca, carroça de guerra maldita e monstro metálico. Pernas articuladas, grossas como troncos, gemiam sob o peso da plataforma blindada, cuja instabilidade parecia zombar da segurança de tais obras da engenharia. Uma chapa de ferro maciço protegia a frente, amassada e marcada por buracos de munições de outros combates, enquanto, acima dessa, o canhão principal oscilava, como um olho enorme, mecânico e inquieto. Besta faminta, expirando jatos de fumaça espessa. Na traseira, o motor a vapor roncava pelos escapamentos. Engrenagens externas giravam irregularmente, expelindo óleo velho sobre a terra, e os pistões subiam e desciam com tal violência que faziam tremer o solo sob os pés.

        "Avançar!", gritou o tenente, erguendo-se por um instante acima da trincheira e apontando adiante. Sua voz era engolida pelo estrondos, mas os soldados, por memória múscular, um instinto mecânico aprendido na escola da guerra, entenderam, e se dirigiram para a luta. Entenderam e não tiveram escolha. 

No interior da máquina, dois operadores puxavam alavancas, giravam válvulas, ajustavam manômetros em um esforço desesperado para evitar que aquela coisa explodisse antes de cumprir sua função. O motor chiou e vibrou, engasgado. Óleo cuspido do solo. Pistões dispararam com um estalo. A estrutura toda inclinou-se para trás, e como uma rã, se colocou prestes a pular.

        De repente, o salto.

        A máquina ergueu-se do solo com um ruído gutural, deslocando um volume de ar que levantou terra, pedras e detritos ao redor. Um instante de suspensão — a máquina pairando no ar, seu peso desafiando toda lógica — então, o impacto. O chão cedeu sob o peso: a aterrissagem rachou o solo e arremessou pedaços de lama e lascas de trincheiras para todos os lados. A cabine interna balançou como um brinquedo descontrolado e os dois homens lá dentro. Presos por cintos de couro manchados de graxa, bateram a cabeça contra as chapas de ferro que os rodeavam.

        "Alinhar o canhão! Dois graus acima!", gritou um, a voz embargada; o outro, vermelho e suado, obedeceu: girou o volante do mecanismo principal enquanto o canhão erguia-se num ranger metálico. Alvo: trincheira inimiga à frente. Homens espreitavam detrás de barricadas improvisadas, fuzis prontos, mas congelados diante daquela visão que avançava como uma paródia do reino animal e da engenharia mais avançada.

        O disparo rugiu engolindo o próprio som da guerra. A explosão jogou a máquina para trás, seus pistões guinchando sob a potência, enquanto a bola de ferro rasgava o ar em uma trajetória grosseira. Não acertou o alvo — mas isso não importava. A terra explodiu em fragmentos, um buraco abriu-se no chão e gritos atravessaram a fumaça. Alguns homens caíram pelo impacto, muitos caíram pelo puro terror. Alguns tentaram correr, abandonando seus postos; outros permaneceram esmagados pela inércia do medo.

        O operador do canhão olhou para o lado e cuspiu sangue. "De novo?", perguntou, quase sem acreditar aquilo ser possível.

        "De novo." O outro puxou mais uma alavanca. A máquina avançava, preparando-se para um segundo pulo. O motor grunhiu mais alto, vomitando vapor em rajadas frenéticas. A chapa frontal, enegrecida pela fuligem e marcada por impactos recentes, parecia o rosto de um monstro mascarado, cego — perigoso. A máquina inclinou-se para trás novamente, as pernas mecânicas dobrando-se em ângulos estranhos. Era como se o próprio ar se recusasse a ceder passagem àquilo.

        Então, o segundo salto.

        Dessa vez, a máquina pousou em plena linha inimiga. Homens gritaram, dispersando-se em todas as direções. Um projétil de um fuzil acertou uma das pernas da máquina, mas ricocheteou deixando apenhas um arranhão superficial. O canhão girou mais uma vez. Dentro, os operadores lutavam contra a instabilidade, ajustando desesperadamente os controles. Lá fora, a trincheira inimiga desmoronava-se em caos e pânico.

        "Disparar!" O comando, um trovão.

         O impacto destruiu o pouco que restava da estrutura da trincheira à frente, arremessando pedaços de corpos e de barricadas à atmosfera. A fumaça espalhou-se feito manto sufocante, misturando-se à lama e ao sangue que pintavam o solo. No interior da máquina, os operadores lutavam para manter a posição, enquanto o motor ameaçava explodir.

       E, ainda assim, dobrou os joelhos preparando-se para o terceiro salto.

        Nessa ponto da história, Isaías interrompeu a história a pretexto de puxar um pouco de rapé pelo nariz. Não estava acostumado a cheirar rapé, mas me pareceria uma desfeita a Isaías. Não sabia dos efeitos entorpecentes que a matéria causa em algumas sensibilidades mais predispostas. Por isso, acabei adormecendo. 

Acordei em meu pijama, no quarto de visitas. Não lembrava de nada, e me sentia por algum motivo envergonhado. Quando saí, encontrei Branca, a esposa de Isaías, colocando a mesa do café. Fui até ela e dei bom dia. Ela então passou a me contar sobre a noite anterior:


sábado, 18 de maio de 2024

ARREBOL QUADRADO 13# a máquina e o corpo

Nina Rodrigues adiantou o bisturi na direção de uma coelha grávida, o sanguíneo  abdômen aberto diante de seus olhos serenos. Numa incisão precisa, que pelos anos de Faculdade há muito estava habituada, extraiu do útero uma placenta. Com cuidado, depositou o bolo carnoso do anestesiado animal em sua cavidade peritoneal. 

Com o bisturi ainda em punho, olhou a hora no relógio de parede, que girava, como sempre, o perpétuo mecanismo em seu sentido de círculo. Ainda era cedo. Precisava encontrar com Dr. Freud para as lições de psicologia, mas ainda tinha mais meia hora, tempo suficiente e até mesmo de sobra para terminar. 

Nina Rodrigues voltou então seus olhos para a coelha grávida; verificou que a placenta se enxertara, por conta própria, no intestino do animal, e que se alimentava normalmente, como se ali tivesse nascido. Satisfeita com o resultado, dirigiu-se aos ovários pequeninos, e executou uma operação chamada pelos médicos de ablação, em que se suprime a função do corpo lúteo de gravidez. Demoraram alguns minutos, mas as demais placentas ainda alojadas no útero, uma a uma abortam. Apenas a placenta anômala, situada na cavidade peritoneal, se manteve intacta. 

- Eis um exemplo no qual o intestino se comportou como um útero e, poder-se-ia mesmo dizer, mais vitoriosamente que as placentas, digamos, "naturais", disse, satisfeita, Nina Rodrigues a Gilberto Telles, seu assistente, que de perto observava tudo. Mantinha certo ar de desinteresse, que Nina Rodrigues interpretava como certo desdém. Quando Gilberto Telles, também conhecido pelo seu apelido de Sorriso falava, no entanto, sua voz era amável, contraste que, para ela, somente exagerava seu ar arrogante.

- Está me dizendo que discorda de Aristóteles?

- Ahn? 

A médica sentiu-se verdadeiramente confusa. Claro que havia lido Aristóteles, mas somente no colégio, quando se preparava para a carreira de medicina. Guardava alguma memória do que ensinavam os professores, mas no campo médico, há muito, ela sabia, os ensinamentos do velho estagirita eram mais que ultrapassados. Não podia entender, portanto, como em pleno século XX alguém poderia ter o trabalho de refutar Aristóteles, já que a própria história havia feito a gentileza de fazê-lo.

- O que a senhorita afirmou, explicou Sorriso, vai diretamente contra o que ensinava Aristóteles.

- Olhe, Telles, não sei como anda gastando suas noites, mas sei bem de uma coisa: não é lendo a filósofos de mil anos atrás que irá se tornar um bom médico.

- Não acha que exista sabedoria no passado?

- Evidente, mas a sabedoria tem hora. E agora - ela indicou a coelha, já acordada, que caminhava na mesa de dissecação - a hora é outra. 

Como muitos homens da época, Gilberto Telles cultivava menos o espírito e mais a afetação. Não era estúpido, como se vê, mas também não esquecia de que a inteligência é precedida por uma dimensão estética que lhe antecede e lhe prepara a recepção, assim como uma carta com brasões e belo envelope dispõe o leitor aos melhores sentimentos quanto ao que virá. Esse, talvez, fosse o defeito capital de Nina Rodrigues: não o deslumbramento com a ciência e a crença religiosa no progresso, que eram mais defeitos de época do que de individualidades; mas sim sua inocência diante da autossuficiência da razão em um mundo que funcionava irracionalmente. Sua honestidade absoluta diante do conhecimento que lhe impedia de perceber como saber por si mesmo era muito pouco, e embora por seu esforço tivesse chegado muito longe - mais longe do que qualquer um imaginaria chegar - dentro de sua área profissional, como ainda veremos, sua pobre inocência vedaria oportunidades e mesmo lhe faria ser passada para trás. 

Talvez sejam coisas relativas à educação, à formação. Filha de comerciantes, nunca foi educada para os ambientes acadêmicos: o discurso que aprendeu era destinado aos salões e salas de jantares. E mesmo esse, pobre criatura, sentia no seu íntimo mal assimilado. Quando via a desenvoltura que sua irmã agia diante das visitas, ou então a graça e elegância com que Lola Baruch era cortejada pelos rapazes, Nina Rodrigues se envergonhava. Ela estava no meio do caminho: entre um destino masculino - a Faculdade de Medicina - e um feminino - a Casa -, e por isso não estava em nenhum dos dois. Nina Rodrigues era, mas era pela metade. Havia se tornado alguém, mas havia, era inegável, se tornado errado. Infeliz nos dons cortesãos dos salões literários, sem jeito para visitar os teatros, a fala tropeçando quando tomava o discurso, tudo que fazia bem era com as mãos e olhos, era fechar a boca, se enfiar numa sala, dissecar animais, ler livros, escrever. 

Seu assistente, por isso, sentia-se injustiçado. Sabia que roubava a cena em qualquer evento público. Como estava submisso a essa vagabunda? Somente poderia estar de caso com Frederik, ele tinha certeza. E enquanto ela dissecava animais, olhava Nina Rodrigues dos pés a cabeça, avaliando seu tipo de mestiça. "O cumprimento jugulo-púbico de uns 13 cm; o xifo-epigástrico de uns 11 cm; epigástrio-púbico: 19 cm; xifo-púbico: 32 cm; jugulo-púbico: 46 cm; do membro superior: 50 cm; do membro inferior: 72 cm. Já o diâmetro transverso-torácico: 28 cm; do antero-posterior torácico: 18 cm; do transverso hipocondríaco: 25 cm; do antero-posterior hipocondríaco. 17 cm. do bi-ilíaco: 21 cm. Do abdômen superior: 5 cm, e o inferior uns 8 cm. O total uns 14 cm. O tórax deve ser de pelo menos 8 cm. O tronco, 26 cm. Membros de 133 cm. Pesa pelo menos uns 50 Kg. Altura de uns 160 cm. É um longetipo, como a maioria das mulatas. Estatura excedente da média, imagino". Não achava Nina Rodrigues feia, mas também não achava seu tipo bonito. Dr. Fréderik talvez gostasse. 

Primeiro aquela moça tímida, falando pouco, lhe pareceu desejável. Não era para se casar, apenas uma noite de diversão. Fez uma investida e foi recusado. O orgulho ferido abriu a porta para que desgostasse de Nina Rodrigues. Passou a observar como era pequena demais para que tivesse o cargo que tinha. Sentia-se muito satisfeito de, nos eventos que frequentavam juntos, era ele que brilhava, em conversas de salão, e não ela, não obstante fosse sua superiora. Voltavam juntos, e na carruagem, às vezes sentia a atmosfera ruim. Sabia que aquilo a humilhava.

Que podia fazer? Fora desde menino criado para aquilo. Lera os clássicos não só para ler, mas para que pudesse lhe empregar. Nina Rodrigues era estúpida: achava que conhecê-los era questão de saber, quando na verdade era questão de falar, de fazer seu saber parecer bem, fosse qual fosse seu conteúdo. Sentia, é verdade, alguma pena dela, mas naquela corrida de ratos não podia recuar até que fosse alguém. Fora, afinal, para isso que havia sido criado. Para ser um grande médico, quem sabe deputado, ou conselheiro particular do presidente. Não queria ser para sempre o serviçal de uma mulata que se meteu no mundo dos homens. Não iria recuar diante de sua fraqueza inata. De memória, recitou:

- "Olhando um pouco à frente vi o imortal mestre de todo homem de saber sentado em reunião filosofal. Honrarias todos vão lhe oferecer".

- Que se trata disso, afinal?

- Dante, no quarto canto do Inferno, descreve nessas palavras a Aristóteles: a ciência certamente se transforma, mas sua sabedoria seguirá até o fim dos tempos imortal. Onde Aristóteles errou foi para que pudéssemos acertar. E onde erramos, podemos buscar correção em seus acertos, mais sapientes ainda por estarem corretos mesmo com a desvantagem de mais de mil anos.

- Não sei aonde queres chegar. Não trato de Aristóteles, trato do sistema reprodutor de uma coelha.

- A natureza - diz ele em A Política - não procede mesquinhamente tal como os cuteleiros de Delfos, cujas facas servem para muitos usos, mas, peça por peça, o mais perfeito de seus instrumentos não é aquele que serve a muitos trabalhos, mas apenas a um.

- Se o que falas é verdadeiro, o velho estagirita parece ter confundido a maquínica faca com o orgânico corpo; é verdadeiro que melhor é a máquina quanto mais perfeita seja sua finalidade, mas para a entidade orgânica, é o oposto que é válido: melhor será o corpo capaz de muitos fins, e não somente um. Essa é a diferença entre corpo e máquina: e se a evolução engendrou o primeiro, é porque a finalidade perfeita do mecanismo, diante do jogo da sobrevivência, é inferior à inacabada e polivalente plasticidade do corpo.

Os dois então ficaram em silêncio. Havia certo constrangimento no ar. Nina Rodrigues examinou a hora e viu que já era melhor se preparar para sair. Mandou seu assistente arrumar tudo e trancar a porta do laboratório e foi na direção da casa de Dr. Freud.

sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

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