Mostrando postagens com marcador jorge luis borges. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador jorge luis borges. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 10 de julho de 2024

contra o empirismo

 estou lendo desde ontem os "primeiros princípios" de herbert spencer (para quem não sabe, o maior filósofo inglês do XIX), que para elucidar sua teoria da evolução, naturalmente, prossegue desde os primeiros conceitos - possibilidade de verdade, existência de deus, tempo e espaço, relatividade e conciliação de todo conhecimento possível, o incognoscível, a filosofia e a religião, matéria, movimento e força, etc -, em um gênero filosófico que me remete imediatamente às minhas leituras longínquas de jorge luis borges, principalmente a de francis herbert bradley (que, no entanto, pelo que me lembro, era bem mais idealista do que o empirista spencer). parece que na forma de construção da filosofia, essa ordenação da menor causa para as maiores, da menor parte como condição de conhecimento da maior, experimento um daqueles gozos mnemônicos proustianos - que, aqui e agora, no entanto, não possui cheiro, gosto, toque, som, forma, não se trata de lembranças inscritas no fenômeno sensível, ou então, é uma sensibilidade intelectual, da fruição de formas abstratas, como a ordenação de um tratado e a forma de uma ideia -.

escrevo tais coisas que para escrever contra o empirismo, no sentido da primazia da matéria como suporte para a inscrição e escritura. existe uma ordem criada por nós que abre o espaço da linguagem sem que seja necessário uma ordem de diferença pré-estabelecida, dada pela matéria. ou seja, a "coisa empírica", sua ordem de diferenças, não é dada pela natureza, mas por nossas intuições transcendentais, que de certa maneira, fundam as partes, as divisões, a forma, do objeto empírico.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

nova biografia intelectual (mais uma)

 No início de qualquer pesquisa, quando tomamos a decisão de entrar em um novo campo do saber, de que nada conhecemos, é necessário encontrar alguma maneira de se orientar. Alguns objetos sofrem de escassez bibliográfica, e neste caso o pesquisador é sempre de alguma forma um inventor e pioneiro, alguém que talvez abra os primeiros caminhos para o que depois virá. 

Já me ocorreu algumas vezes o desejo de estudar um autor menor, não-canônico, e durante algum tempo pensei em José Agrippino de Paula, que apesar de razoavelmente conhecido e associado com o tropicalismo, me parecia propício para um estudo desses, que me exigiria ao mesmo tempo mergulhar de cabeça nos seus (poucos) livros; nos escritos e escritores dos arredores; estudar a história e a sociologia que animavam aquela vida; aprender os incidentes de sua tumultuada biografia; mobilizar teorias e obras diversas para pensar e repensar meu objeto; mas o principal: não ter que ler - ou ler muito pouco - o que dele se escreveu.

A fantasia que descrevo, no entanto, é dessas que vivem somente de pura alteridade, de quem assiste de longe a grama do vizinho, e ela é sempre mais verde do jardim miserável que dia-a-dia trato de cuidar (mas as petúnias sempre morrem, e minha esposa quer malditas petúnias).

Meu mestrado seguiu a esteira do pouco que conheci para escrever o trabalho de conclusão de curso que entregamos para nos graduar. E não que na época reclamasse, porque eu realmente gostava de ler a Jorge Luis Borges, e ainda lhe considero um dos grandes escritores do século, quer dizer, não somente eu que faço julgamento tão bondoso de seus escritos, e por isso que universidades de todo o mundo produzem papers e mais papers associados a esse nome, e confesso, eu, que como todo mestrando estava somente aprendendo a pesquisar, quando comecei esperava fazer uma dissertação original, originalíssima, que tivesse ao menos repercussão nos estudos brasileiros de literatura argentina, e não riam agora de seu escritor, por favor, porque ele era somente um garoto como você também já foi, eu presumo, e foi somente quando dei conta da verdadeira massa de escritos que havia sobre sua obra, na quantidade de páginas que ano a ano se redigia sobre ela, na quantidade de pessoas que assiduamente pensavam e repensavam cada palavra escrita por um único homem… 

O mestrado chegou ao fim quando a banca, em demonstração de bondade e boa disposição que ainda agradeço, aprovou um caótico trabalho sobre a crítica literária de Jorge Luis Borges, e também sobre algumas de suas repercussões dentro de certos contos. Ao fim dessa turbulenta experiência que foi, pela primeira vez, pesquisar, e também, claro, fazer a redação de uma dissertação inteira, mais do a satisfação de entregar um produto de qualidade, me ficou a satisfação de ter passado por um violento processo de iniciação acadêmica, e que como toda iniciação, ser mutilado era somente parte do rito.

Confesso um erro: não dei nem um semestre sequer para respirar. Juntei meus conhecimentos em literatura argentina - que naquela altura, para um rapaz brasileiro de 25 anos eram razoáveis - e fiz um novo projeto de doutorado que, me perdoe o leitor, se seguisse à risca, era muito promissor. Na época, depois de estudar a figura do crítico literário a partir da obra de Borges, me interessavam problemas mais contemporâneos, relativos à situação do escritor e da literatura no mundo de agora. Na época não percebi, mas quando montei meu projeto de, a partir dos escritos de César Aira, escritor argentino ainda vivo, pensar a situação do escritor profissional nas últimas décadas, eu dava continuidade a meus estudos sobre a crítica literária de Borges (que é a crítica fora um episódio da história profissional da literatura?), mas avançando um pouco no tempo, em que o escritor - e o artista em geral - assumem outra posição dentro do mercado e do capitalismo. Não duvido que, se seguisse esse projeto, iria cada vez mais na direção de uma sociologia da literatura em articulação com uma história da arte (especialmente a escrita) como mercadoria.  


sábado, 20 de maio de 2023

SOBRE MINHA DISSERTAÇÃO SOBRE BORGES: o que vale a pena

A dissertação que entreguei para obter o título de mestre - hoje percebo melhor do que na época o seu tema - foi dedicada à análise da crítica literária de Jorge Luis Borges, à montagem de uma espécie de “micro-história da literatura” a partir dela - digamos, a história da literatura segundo Borges - e também, - esta é minha parte favorita - sobre os desdobramentos de sua atividade de crítico dentro de sua obra mais formalmente categorizada como ficção.

Em minha opinião, é um trabalho em que não fui capaz de atingir uma qualidade razoável de conjunto, mas certo otimismo faz procurar virtudes mesmo no fracasso: afinal, há pelo menos o esboço de boas ideias, que algum pesquisador melhor preparado poderia delas se servir e fazer coisa bem melhor. O que me parece mais importante em minha dissertação, contudo, foi ter funcionado como espécie de iniciação, estes rituais violentos em que se arrancam pedaços de animais e mutilam pênis de crianças; no caso, a mutilação foram os dois anos de pesquisa, a escrita de um trabalho de cento e poucas páginas, e o processo de atravessar a burocracia de bancas e orientações. A marca que me deixou é contudo indelével, e para ser percebida, assim como no caso da circuncisão, muitas vezes exige o convívio íntimo.

Para falar em termos francos, minha dissertação é meio merda. Há, contudo, dois capítulos que me agradam, e caso seja do interesse do leitor, posso até mesmo enviá-los.

Um deles foi escrito a partir da relação de Borges com o gênero policial, gênero que, além de ter escrito contos, também resenhou assiduamente, ao ponto de ter desenvolvido uma verdadeira poética do policial, cujo mandamento principal, no entanto, era que fosse constantemente des-re-montada (perdão por esta palavra horrível); o outro capítulo que salvaria da fogueira, creio ser meu favorito, é um estudo que fiz a partir das críticas e comentários de Borges sobre a literatura de James Joyce, que flutuou entre o elogio entusiasmado - principalmente na década de 20 - às críticas mais virulentas (essas, se não me enganam, se concentram lá pelos anos 40). De qualquer maneira, identifiquei alguns traços de uma espécie de Ulysses segundo Borges, e busquei demonstrar como ele repercute em alguns de seus contos, especialmente aqueles em que o narrador se coloca a partir da posição de crítico que comenta e decifra a obra de hermético autor (em Borges, a literatura de Joyce aparecia repetidamente assim, como um jogo erudito para críticos ociosos investigarem...).

sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...