se marroquino nascesse na frança seria filósofo. me entregaria a rigidez da lógica, ao alexandrino de mallarmé. escreveria esfinges, que devoraria dos enigmas todas as respostas: meu pensamento me faria poeta. olhar o céu de noite, na saída de um bar, e dividido entre as duras palavras de kant e minha namorada, tomaria meu destino para casa. provavelmente o metrô, que mergulha por dentro da terra. escreveria sinônimos, expandiria o idioma por meio de sua identidade, mas também seria destrutivo, como o martelo de nietzsche ou a gramática de derrida. como se fosse brasileiro, contudo, creio que sentiria-me fora de lugar: seria um impostor ou um fracassado, alguém que não faz sentido estar onde chegou. e por isso, seria marroquino, a sonhar com a existência que alá concedeu ao meus avós. tomaria café e fumaria haxixe com uma cerimonia que as vezes disfarçava, com vergonha de que imaginassem que me sentia ligado à terra. porque não quero ser marroquino, no entanto eu queira ser marroquino. se isso fosse um sonho, por que escolhi ser marroquino? se isso fosse um sonho, por que não a realidade? eu, um marroquino, que enxerga as coisas, pensa as coisas, sente as coisas - a empiria toma conta de todos meus pensamentos depois de tantas leituras de hume - como um marroquino, no entanto, não sou um marroquino. penso em meus ancestrais, se ajoelhando em mesquitas e comprando escravos em mercados. foi assim que aconteceu? não sei, mas sou como se fosse. perguntei certa vez a minha mãe sobre a nossa vida em marrocos. ela parecia não me saber dizer como foi juventude. parecia ter esquecido dos anos que passou em marrocos. ouvia aquelas histórias, que nada diziam, fingindo me satisfazer, mas por dentro frustrado com minha mãe. por que não me contaria de seu passado? não sei, e sem que perceba, escolho não pensar mais nisso. mas, se eu fosse marroquino, jamais conseguiria deixar de pensar nisso.
quinta-feira, 25 de julho de 2024
se marroquino nascesse na frança
quinta-feira, 18 de julho de 2024
a vontade do sujeito de saltar por sobre sua própria sombra
a ser na distância interminável do tempo,
como um pêndulo que vem e vai,
o conceito marca e perde, incansável,
o progresso do dialético movimento.
o relógio toca, desperto.
limpo a remela amarelada,
sinto o sol quente na cara.
entram pela janela as casinhas apertadas,
tijolos expostos, reboco
som de risadas alta, música popular
barata pras massas, o lavar da máquina,
cheiro gostoso de almoço
(carne seca, arroz, feijão, batata)
sonhava com o espaço e o tempo transcendentes.
ora era grego, zenão e heráclito, aristóteles e platão.
ora via o reno: era alemão, em contemplação calma do absoluto.
era isso e mais tudo: corporificação do espírito absoluto.
aqui, agora, no entanto sou nada.
mas me visto, sem sequer pensar nisto,
em esforço vitorioso do instinto
de esquecer mesmo a razão do sentir.
é outro domingo: abro um livro,
a fenomenologia do espírito,
e leio até o entardecer levar o sol da janela.
sábado, 15 de junho de 2024
a fala voa, a escrita fica
graças a deus, criador da extensão que veloz dispersa a energética matéria, a duração da fala é vã e passa, mas quanto tempo de silêncio é necessário para merecer escrever uma só palavra, que a frágil espessura do papel condena a durar enquanto permitirem as chamas e traças?
notícia parnasiana
a sinhazinha da ketamina aspirava pelas narinas substância alva esfarelada. narcopiletica viajava pelos campos brancos oníricos. seu corpo belo rijo fedia a mijo. pingava gota a gota a substância amarelada do carmim engenho d'água. na calcinha, acumulada, do grande peso nasceu um rio. em fina cascata, escorria pelo piso, as luzes douradas do sol a iluminava. era um dia lindo, este, que entrava pelo vitral da casa, em que a sinhazinha da ketamina morreu desacordada, por apoplexia fulminante. era, a jovem, fumante. um cigarro ainda brilhava no cinzeiro, estrela solitária, naquele triste banheiro, que fedia a urina, fumaça e cadáver.
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