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sábado, 8 de julho de 2023

CONFISSÃO E VIOLÊNCIA - a intimidade de Machado de Assis exposta por Lúcia Miguel Pereira

MACHADO DE ASSIS (1936) - Lúcia Miguel Pereira

"Êsse homem tão recatado, tão cioso de sua intimidade, só teve um descuido, só deixou uma porta aberta: seus livros". (p. 22)

obsessão com a vida íntima do escritor: revanche contra a obsessão que a própria celebridade tinha por provar ao público ter um só coração, uma só face. ser um só diante do júri, "sou sincero!" e os historiadores vindouros loucos em fazer a máscara cair, colocar outra no lugar.

"vingança", pois m.g.l. sabe tratar de procedimento cruel: despojar o outro de quem desejou ser, da identidade que forjou...

"violentar a alma de Machado de Assis através das confissões involuntárias, é defendê-lo contra si próprio, contra o seu convencionalismo de superfície". (p. 22)

mesmo depois de morto, Machado de Assis não tem descanso: continuaram a destrinchar sua imagem, continuaram a tentar remover o poder que tanto deseja de determinar quem afinal é ele próprio, e pelos métodos mais cruéis, inquisitoriais, extrair as confissões que em toda vida nunca fez, fazê-lo, mesmo quando morto, admitir palavras que ao longo de toda vida permaneceram veladas, misteriosas, nunca postas em enunciado...

O poder sobre nosso corpo, sobre nossa voz, sobre nossa alma, sobre nossa imagem, sobre nossa identidade: perdermos imediatamente, a partir do instante que começamos a jogar, e mesmo que o autor por toda vida lute, que a celebridade valha de seu poder, de seu espaço público, da imagem que é capaz de alastrar, no momento em que sua voz toca as malhas da escritura, é para se perder...

"mistérios que não estão ainda de todo desvendados, e nem o serão jamais, porque, se se deixou adivinhar, nunca se confessou. Parece mesmo ter, propositadamente ou não, desmanchado as pegadas, confundido as pistas". (p. 24).

(ecos de ficção policial: o autor, sua intimidade e biografia interior, é o bandido; o historiador-detetive precisa encontrar sua verdadeira identidade).

sexta-feira, 26 de maio de 2023

nova biografia intelectual (mais uma)

 No início de qualquer pesquisa, quando tomamos a decisão de entrar em um novo campo do saber, de que nada conhecemos, é necessário encontrar alguma maneira de se orientar. Alguns objetos sofrem de escassez bibliográfica, e neste caso o pesquisador é sempre de alguma forma um inventor e pioneiro, alguém que talvez abra os primeiros caminhos para o que depois virá. 

Já me ocorreu algumas vezes o desejo de estudar um autor menor, não-canônico, e durante algum tempo pensei em José Agrippino de Paula, que apesar de razoavelmente conhecido e associado com o tropicalismo, me parecia propício para um estudo desses, que me exigiria ao mesmo tempo mergulhar de cabeça nos seus (poucos) livros; nos escritos e escritores dos arredores; estudar a história e a sociologia que animavam aquela vida; aprender os incidentes de sua tumultuada biografia; mobilizar teorias e obras diversas para pensar e repensar meu objeto; mas o principal: não ter que ler - ou ler muito pouco - o que dele se escreveu.

A fantasia que descrevo, no entanto, é dessas que vivem somente de pura alteridade, de quem assiste de longe a grama do vizinho, e ela é sempre mais verde do jardim miserável que dia-a-dia trato de cuidar (mas as petúnias sempre morrem, e minha esposa quer malditas petúnias).

Meu mestrado seguiu a esteira do pouco que conheci para escrever o trabalho de conclusão de curso que entregamos para nos graduar. E não que na época reclamasse, porque eu realmente gostava de ler a Jorge Luis Borges, e ainda lhe considero um dos grandes escritores do século, quer dizer, não somente eu que faço julgamento tão bondoso de seus escritos, e por isso que universidades de todo o mundo produzem papers e mais papers associados a esse nome, e confesso, eu, que como todo mestrando estava somente aprendendo a pesquisar, quando comecei esperava fazer uma dissertação original, originalíssima, que tivesse ao menos repercussão nos estudos brasileiros de literatura argentina, e não riam agora de seu escritor, por favor, porque ele era somente um garoto como você também já foi, eu presumo, e foi somente quando dei conta da verdadeira massa de escritos que havia sobre sua obra, na quantidade de páginas que ano a ano se redigia sobre ela, na quantidade de pessoas que assiduamente pensavam e repensavam cada palavra escrita por um único homem… 

O mestrado chegou ao fim quando a banca, em demonstração de bondade e boa disposição que ainda agradeço, aprovou um caótico trabalho sobre a crítica literária de Jorge Luis Borges, e também sobre algumas de suas repercussões dentro de certos contos. Ao fim dessa turbulenta experiência que foi, pela primeira vez, pesquisar, e também, claro, fazer a redação de uma dissertação inteira, mais do a satisfação de entregar um produto de qualidade, me ficou a satisfação de ter passado por um violento processo de iniciação acadêmica, e que como toda iniciação, ser mutilado era somente parte do rito.

Confesso um erro: não dei nem um semestre sequer para respirar. Juntei meus conhecimentos em literatura argentina - que naquela altura, para um rapaz brasileiro de 25 anos eram razoáveis - e fiz um novo projeto de doutorado que, me perdoe o leitor, se seguisse à risca, era muito promissor. Na época, depois de estudar a figura do crítico literário a partir da obra de Borges, me interessavam problemas mais contemporâneos, relativos à situação do escritor e da literatura no mundo de agora. Na época não percebi, mas quando montei meu projeto de, a partir dos escritos de César Aira, escritor argentino ainda vivo, pensar a situação do escritor profissional nas últimas décadas, eu dava continuidade a meus estudos sobre a crítica literária de Borges (que é a crítica fora um episódio da história profissional da literatura?), mas avançando um pouco no tempo, em que o escritor - e o artista em geral - assumem outra posição dentro do mercado e do capitalismo. Não duvido que, se seguisse esse projeto, iria cada vez mais na direção de uma sociologia da literatura em articulação com uma história da arte (especialmente a escrita) como mercadoria.  


terça-feira, 23 de maio de 2023

porque não prestava atenção nas aulas de costa lima

Esclareço que Gilberto Freyre e seus escritos só se tornaram meu objeto de pesquisa quando, no início de 2022, decidi de uma vez por todas que não iria mais estudar literatura. O curso de Costa Lima, ocorrido no primeiro semestre de 2021, se passou portanto em um tempo em que estava com minha cabeça concentrado em problemas diversos. Haviam aqueles relativos mais propriamente à minha pesquisa, e que diziam respeito à teoria e história da literatura, especialmente da literatura argentina (depois de terminada uma dissertação sobre a crítica e seus desdobramentos na ficção de Jorge Luis Borges, havia ingressado no doutorado com um projeto de estudar a obra de outro escritor argentino - no caso, a obra de César Aira -, desta vez não a partir da questão do crítico, mas sim da problemática da profissionalização do escritor (não havia dado conta, mas agora percebo como hoje uma pesquisa era continuação - e neste caso, continuação histórica! - da anterior). O interesse que nutria pelos estudos da historiografia brasileira, portanto, na melhor das hipóteses, eram daqueles que justificamos pela esperança de, por meio da diversidade de nossos estudos, realizar a fantasia de sermos dotados da fantástica e eclética erudição que certos intelectuais - Borges, certamente, era um deles - pareciam representar aos jovens e incautos estudantes. Admito que, no entanto, conhecer a historiografia brasileira, especialmente quando o professor que lhe apresentava fazia questão desqualificá-la por completo, e que, autor por autor, não deixava pedra sobre pedra, pouco deve ter me estimulado a acrescentar escritos tão irrelevantes à erudição que eu fantasiava um dia adquirir.

Melhor, provavelmente eu pensava, era manter os estudos que fazia à parte e que nada tinham a ver com nada do que eu estudava, mas que me interessavam por motivos diversos, e ao invés de ler o que era ordenado pela disciplina, lembro preferir gastar minha semana com outras leituras. Os amigos da internet não paravam - e ainda, pelo visto, não pararam - de falar do Anti-édipo, e junto do livro de Deleuze e Guattari também fiz algumas leituras de Freud, a mais marcante, sem nenhuma dúvida, foram trechos de Psicopatologia do cotidiano (talvez porque meu primeiro contato com a psicanálise partiu de um panfleto escrito contra ela, mas nunca senti necessidade de me aprofundar na psicanálise; ainda assim, sinto ter adquirido considerável conhecimento, digamos, vulgar sobre sua teoria, já que tantos amigos falavam - e ainda falam! - sobre ela). Houve também minha aproximação com o marxismo a partir de O capital, livro que de tempos em tempos leio excertos ao acaso. Houve a Gramatologia, que primeiro, como alguém educado por certa concepção social de linguagem aprendida de Bakhtin, me pareceu detestável, simplesmente a repetir o idealismo da linguística estrutural, mas que quando compreendi pelo menos uma fração do que Derrida tinha a dizer naquele livro (Uma pena que a melhor parte do livro seja a segunda, e que geralmente quase nunca se passa da primeira, talvez pelo cansativo de sua leitura). Estava já, desde antes da Gramatologia - creio desde que li as críticas que Bakhtin faz à linguística burguesa - bastante interessado em compreendê-la melhor, e também examinei livros anacrônicos, como a Linguística Geral de Saussure, li artigos de Jakobson que pouco entendi na hora, mas que hoje, melhor compreendido o que afinal foi o estruturalismo, poderia até mesmo falar com alguma propriedade do pouco que me lembro… O ponto mais importante do meu interesse pelo estruturalismo, contudo, foram dois: primeiro a leitura d’O pensamento selvagem, de Lévi-Strauss, que junto d’A arqueologia do saber, de Foucault, começaram a lentamente germinar em meu corpo uma espécie de teoria do discurso ou da linguagem que sinto cada dia mais madura. Houve também Sade, Fourier, Loyola, de Roland Barthes, junto de tantas leituras, fez nascer em mim essa espécie de teoria da escritura e das línguas que passei a empregar como método de estudo e de análise do discurso, e que hoje trato pelo nome, um pouco livremente, é verdade, enquanto filologia, embora o historicismo típico de tal disciplina esteja consideravelmente diluído, ou melhor, desacelerado, pela lentidão que o estruturalismo (seja qual for: o de Barthes, Foucault ou Lévi-Strauss) impõe à maneira com que estudo… Aderi à filologia para descrever meu trabalho, ainda que não pretenda exatamente reencontrar a origem da linguagem estudada, após ler uma conferência de Auerbach sobre Vico, em que se difere a filologia da filosofia, e descobri assim no termo a potência que procurava para se referir a potência que via na linguagem, e que a filosofia e as ciências, em geral, desprezavam, fazendo dela somente instrumento de conhecimento… Quanto tempo demorei para compreender o que sugere Derrida na Gramatologia! O livro de Lévi-Strauss fez com que concebesse a linguagem - em sua existência mutante, histórica, cultural, social… - como um a priori para o conhecimento, como fenômeno que, assim como o incesto e o casamento, eram simplesmente necessários para que se existisse sociedade… Não, era ainda mais profunda a situação da linguagem, isto pressenti com Foucault, em sua Arqueologia do saber, porque a linguagem não era simplesmente aprioristica, a linguagem era literalmente poder, e que se o enunciado válido - sapiente, racional, compreensível - estava limitado a algumas formas, se o pensar não era livre, mas regrado e fracionado, era porque tratavasse, dentro do campo do discurso, de verdadeira guerra, e a língua era apenas face visível de sua violência… A linguagem era sim este a priori conforme propôs Lévi-Strauss, e somente por meio dela poderia se pensar… Mas Foucault introduz diabolicamente a questão da moral, a questão da história… Como afinal se veio a pensar assim? Como se deram os limites deste pensar? A favor de que? Contra o que? O que este a priori autoriza, a quem dá poder, como a partir de tais palavras, verdadeiras tecnologias de sujeição corporal, capazes de produzir nas pessoas não somente efeitos como os estipulados pela retórica clássica, não, não se trata somente de convencer o outro, mas verdadeiramente de sujeitar alguém, de constituir um corpo, uma subjetividade, a partir deste traçado chamado linguagem, não resta muito além do que obedecer… Foucault demonstrou para mim que a linguagem era ao mesmo tempo ordem e moral; E novamente, então, Derrida, e novamente, então, que a língua é a remessa infinita dos seus significantes… A linguagem não era mais meio para conhecimento nenhum, ela era também o próprio conhecer… E se nasce uma língua, se nasce um conhecimento… Se ele se dissemina… Alguma língua, algum saber, algum conhecer, alguma coisa se perde.


sábado, 20 de maio de 2023

SOBRE MINHA DISSERTAÇÃO SOBRE BORGES: o que vale a pena

A dissertação que entreguei para obter o título de mestre - hoje percebo melhor do que na época o seu tema - foi dedicada à análise da crítica literária de Jorge Luis Borges, à montagem de uma espécie de “micro-história da literatura” a partir dela - digamos, a história da literatura segundo Borges - e também, - esta é minha parte favorita - sobre os desdobramentos de sua atividade de crítico dentro de sua obra mais formalmente categorizada como ficção.

Em minha opinião, é um trabalho em que não fui capaz de atingir uma qualidade razoável de conjunto, mas certo otimismo faz procurar virtudes mesmo no fracasso: afinal, há pelo menos o esboço de boas ideias, que algum pesquisador melhor preparado poderia delas se servir e fazer coisa bem melhor. O que me parece mais importante em minha dissertação, contudo, foi ter funcionado como espécie de iniciação, estes rituais violentos em que se arrancam pedaços de animais e mutilam pênis de crianças; no caso, a mutilação foram os dois anos de pesquisa, a escrita de um trabalho de cento e poucas páginas, e o processo de atravessar a burocracia de bancas e orientações. A marca que me deixou é contudo indelével, e para ser percebida, assim como no caso da circuncisão, muitas vezes exige o convívio íntimo.

Para falar em termos francos, minha dissertação é meio merda. Há, contudo, dois capítulos que me agradam, e caso seja do interesse do leitor, posso até mesmo enviá-los.

Um deles foi escrito a partir da relação de Borges com o gênero policial, gênero que, além de ter escrito contos, também resenhou assiduamente, ao ponto de ter desenvolvido uma verdadeira poética do policial, cujo mandamento principal, no entanto, era que fosse constantemente des-re-montada (perdão por esta palavra horrível); o outro capítulo que salvaria da fogueira, creio ser meu favorito, é um estudo que fiz a partir das críticas e comentários de Borges sobre a literatura de James Joyce, que flutuou entre o elogio entusiasmado - principalmente na década de 20 - às críticas mais virulentas (essas, se não me enganam, se concentram lá pelos anos 40). De qualquer maneira, identifiquei alguns traços de uma espécie de Ulysses segundo Borges, e busquei demonstrar como ele repercute em alguns de seus contos, especialmente aqueles em que o narrador se coloca a partir da posição de crítico que comenta e decifra a obra de hermético autor (em Borges, a literatura de Joyce aparecia repetidamente assim, como um jogo erudito para críticos ociosos investigarem...).

sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

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