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domingo, 15 de dezembro de 2024

anotações sobre AMAR, VERBO INTRANSITIVO, de MÁRIO DE ANDRADE.

A intransitividade do amor parece sugerir o fulgor do desejo, que se conecta em detrimento das raças. Amar, verbo intransitivo, é um romance de um amor mestiço. Narra o idílio amoroso entre uma professora alemã e um jovem rapaz brasileiro e de origens portuguesa.

A família luso-brasileira se representa de forma grosseira, com tendência a ressaltar os traços cômicos do naturalismo (o suor, a sujeira, a protuberância e feiura dos corpos...); são simples comerciantes, com a cabeça nos cálculos econômicos e nos hábitos mais corpóreos e terrenos.

Contraste com a representação de Fraulein, a professora alemã, como um tipo ideal, linda e loura, cujo instintos pareciam determinar-lhe os gostos elevados dos arianos, a sua vasta cultura de Goethe, de feição contemplativa e imune às mundanidades das paixões baixas. 

Ora, o desejo que ela sente pelo aluno será narrado como uma sucessão de sensações novas, que fazem aquele corpo frígido de alemã conhecer torpores sentimentais até antes desconhecidos. Se é o romance da formação de Carlos, o aluno brasileiro por ela educado sentimental e intelectualmente - lembre-se que Fraulein deveria iniciar Carlos nos negócios das letras e do sexo -, esse é também um romance de re-educação dessa moça alemã, que sofrerá dos mais variados estados passionais sob a influência do rapaz.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

o banheiro

quando nos cagamos em público pela primeira vez aprendemos que o cocô é motivo para vergonha. somos reprimidos, às vezes gentilmente, outras de formas mais grosseiras, por gritos e insultos. tão logo ganhamos consciência de nosso cocô, aprendemos que ele não é coisa-pública. é o cocô que, antes do sexo, nos introduz na existência do segredo. e é o banheiro que, antes da alcova, se torna o primeiro cofre para o depósito desse segredo tão vil. não devemos nos surpreender, então, a relação profunda, sucessiva, que se cria entre o sexo e o banheiro. a criança, tão logo descubra que o sexo está proibido pelo público, irá realizá-lo consigo mesmo, às escondidas, no banheiro. o banheiro é o primeiro e mais persistente templo do amor de muitas crianças que, quando depois de casadas, redescobrem no chuveiro e no vaso esse espaço de gozo, tão sujo e secreto quanto o cocô. são duas coisas que todos sabemos que fazemos, mas que precisam ser feito às escondidas: o sexo e o cocô. e o banheiro une as duas: o único espaço inquestionável de solidão.

sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

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