Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura. Mostrar todas as postagens

domingo, 11 de junho de 2023

naturalismo e antropologia: lévi-strauss como paradigma da separarão

  Em um mesmo parágrafo fizemos uso do termo naturalismo que sugere dois sentidos distintos para essa única palavra. O primeiro naturalismo por nós escrito seria aquele associado à literatura, à ficção, à língua, à forma, etc. A segunda aparição da palavra, ocasião para que abrisse essa nota de rodapé, se refere ao que hoje se chamaria de biologia; é um naturalismo científico, responsável pelo estudo da anatomia, fisiologia, etc, de vegetais e animais. Há também um terceiro naturalismo; terceiro porque sua existência é dupla, e seu estatuto discursivo elástico. Me refiro ao naturalismo dos viajantes, aos diários, relatos de viagens e demais gêneros por eles produzidos. Essa separação entre literário e científico, no entanto, embora pertinente em relação à organização, controle e estabilização dos enunciados, se dentro de uma perspectiva da escritura, da disseminação da língua, percebemos séries de vazamentos e contaminações entre um e outro. Os naturalistas e seus estudos fisiológicos e anatômicos de plantas e animais, colocados a partir de uma história natural e/ou da da evolução, faz com que o estudo seja somente um ramo específico dessa ancestral genealogia em que todos os seres vivos são desdobramento de uma mesma força ou lei; desde os primordiais moneras, até o fantástico desabrochar da inteligência humana, atuaria o mesmo princípio, cujo protótipo mais disseminado foi a seleção natural de Charles Darwin. A história natural, portanto, é o desdobramento de leis da natureza; da interação entre organismo e meio; de sua concorrência e associação com os demais; e se sobrevivem aqueles mais aptos, e se são herdadas as características mais vantajosas, é portanto destino provado cientificamente que a natureza impõe aos seres vivos a adaptação e/ou o aperfeiçoamento e/ou progresso. A antropologia do século XIX surge como um ramo dessa história natural cujo intuito seria buscar, a partir das coordenadas oferecidas por diversos a prioris extraídos das leis naturais, as particulares do desenvolvimento humano no tempo, especialmente a partir da perspectiva de que este desenvolvimento deveria se expressar na forma de aperfeiçoamento das faculdades humanas - a razão, a política e a beleza, para repetirmos a tríada kantiana, são dimensões em que separa-se os humanos dos demais animais e seres vivos. Muita dessa antropologia, em contraste com o que se caracterizou enquanto etnografias, não por acaso era de caráter especulativo; seu objeto de estudo, afinal, não eram grupos ou comunidades humanas específicas, mas acontecimentos enterrados e apagados pelos milhares anos de história: Como do macaco se desenvolveu o homem? Qual seria afinal a origem da razão? Como passaram de bandos desarticulados e sem leis para sociedades dotadas de moralidade e organizada por preceitos públicos? Em que circunstância passou o ser humano a falar, comunicar e representar o mundo e os acontecimentos nessa forma tão arrojada que a língua permite? Percebam que essas perguntas não se tratam exatamente de encontrar princípios explicativos ou teóricos, porque esses já estavam dados; embora hajam divergências aqui e acolá, o princípio de tudo repousa naquilo que é a lei da natureza: a escassez, a superação do mais apto e o falecimento dos fracos, a herança das aptidões e gradual desaparecimento dos defeitos, etc. O que se tratava para estes antropólogos não era desvendar as leis da natureza; essa afinal já estava dada. O que a antropologia especulativa fazia era antes uma tentativa de estender as leis da evolução e os estudos naturalistas ao seu limite, até o ponto em que sairíamos das leis naturais e teríamos que passar a pensar em leis humanas; ainda que essas leis humanas partissem da analogia entre a evolução humana e a evolução natural, ao colocarem essa linha divisória entre o macaco e o homem - razão, ética, língua - de maneira críptica se abria a brecha por onde os antropólogos do século seguinte fundaram um campo totalmente autônomo, separando a antropologia dos métodos e teorias naturalistas por meio da aproximação de outros saberes. Embora saibamos da artificialidade dos paradigmas e origens, é difícil não mencionar o livro Estruturas elementares do parentesco, publicado em 1949 sob o nome de Claude Lévi-Strauss, não somente por propor um gênero de antropologia que se disseminou não só por dentro da disciplina antropológica, mas para outros campos discursivos. Talvez a antropologia cultural de Franz Boas pudesse ser um mito de origem mais adequado para tratar da cisão entre os estudos antropológicos e as leis naturais, é verdade, já que estabelece a primazia da cultura sobre o meio e a raça. Sem negar a importância de Boas para os estudos antropológicos, mas parte considerável do poder cifrado em Estruturas elementares do parentesco foi ter estabelecido a distinção entre natureza e cultura com a mesma força sistemática que caracterizava as teorias e filosofias da natureza. Quando Lévi-Strauss demarca a fronteira entre natureza e cultura por meio da capacidade humana de controlar, operacionalizar, distorcer, artificializar, organizar, e enfim, dar sentido diverso para aquilo que é o fim último da lei da natureza, a reprodução, transforma o que era fundamento e intuito da história natural em instrumento para a realização de coisas alheias ao mundo animal; muito especialmente, no Estruturas elementares do parentesco, a reprodução, o controle socialmente disposto sobre ela, faz com que a natureza, a reprodução da espécie, fosse, primeiro, um instrumento de política, que desenha redes de alianças e inimigos, mas segundo, e esse é o grande salto proposto, a reprodução da espécie, por meio da troca matrimonial, passa a atender não à lei da seleção natural, à reprodução dos caracteres mais fortes, mas sim à reprodução da sociedade, reprodução de suas estruturas. Não se herda ou não se interessa mais com a herança genética, com as aptidões passadas de pai para filho; Lévi-Strauss leva as ciências sociais para pensar na reprodução e nascimento como herança de um nomos, uma comunidade e modo de viver anterior ao nascimento da criança, e tão logo esteja nascida, tão logo será posta para participar de tal nomos, de modo tão intenso e alienante que a sociedade passa a adquirir as feições de natureza; a cultura é naturalizada. Somente à guisa de conclusão, ainda sobre Franz Boas, importante destacar que muito embora tivesse proposto a cultura como esse espaço teórico capaz de separar a antropologia do naturalismo, sua postura diante dos conceitos que canalizavam a filosofia e história natural dentro da antropologia, com a raça, o meio, é quase sempre o de ceticismo: embora preconize o estudo da cultura como método mais adequado para se conhecer uma sociedade, e que rejeite a hipótese evolucionista da superioridade entre povos e/ou raças, o ponto de Boas não passa por abolir a importância dos estudos biológicos, a genética e fisionomia, como saberes da disciplina antropológica; Boas, antes de mais nada, pretende declarar cientificamente infundadas as teorias de que a psicologia de uma pessoa possa ser explicada por sua origem genética, preferindo pensar na questão das patologias sociais como oriundas de causas estritamente sociais. 


o principal modelo de Lévi-Strauss, pelo que parece 


se destaca por definir de forma positiva a separação e distinção 

transpor esse arsenal linguístico e conceitual para um gênero, se não de historiografia especulativa, que dema o desenvolvimento da raça e/ou culturas e/ou civilizações, surge como símile da história natura uma história progressiva e violenta cujo modelo mais proeminente foi a seleção natural de Darwin


segunda-feira, 22 de maio de 2023

POR UMA HISTORIOGRAFIA DE VANGUARDA

O argentino Ricardo Piglia, em ensaio muito breve e conciso - talvez por algum impulso brechtiano de dissolver a magia que anima as histórias e que ilude inúmeros leitores - revelou como o conto moderno opera de maneira bem simples. 

Que o leitor - e muitas vezes o próprio escritor - não percebessem tão simplório mecanismo, talvez signifique que mesmo o truque mais gasto e ordinário, se for bem executado, ainda é capaz de produzir grandes feitos. 

No que consiste o truque do conto moderno? Piglia explica que sua trama opera a partir da ilusão - um legítimo truque empregado para distrair o leitor - e ao invés de narrar-se a história que acompanhamos, na verdade, o texto oculta uma narração dupla: o segredo, contudo, é que a segunda destas histórias ocorre de maneira discreta, sem que o leitor perceba ou dê atenção suficiente; se a primeira história é evidente e salta a seus olhos, a segunda é narrada, mas narrada por meio cifras: espécie de narração criptográfica. O escritor, portanto, faz um belo truque de prestidigitação, como os mágicos; ocupam a atenção do espectador com qualquer bobagem, enquanto, fora dos olhares, por dentro de sua manga, prepara o movimento que, revelado no final, irá deixar todos de queixo caídos, e arrancará os aguardados aplausos da multidão.

A surpresa manifestada pela aparição da segunda narrativa aqui contudo não precisa surgir no final; afinal, não estamos em um conto; este, digo ao improvável leitor desavisado, que por algum motivo tem diante dos olhos estas palavras, é somente um projeto de pesquisa, feito para circular e ser lido entre não mais que quatro ou cinco pessoas.

Trata-se de um gênero textual, digamos, burocrático, em que explico, primeiro, os antecedentes, ou ainda, como cheguei ao meu objeto de pesquisa; e como também este é um gênero judicativo, que precisa receber o crivo de algumas autoridades acadêmicas, o que estou a fazer - mesmo quando não pareça - é a explicação, defesa e exposição (parcial) de um trabalho de pesquisa já em andamento, e que a partir da orientação dos pares serão impostos alguns limites e também oferecidas novas possibilidades. Pobre leitor!, que desorientado chegaste até aqui, irei ainda lhe explicar que, por convenções do gênero, estou isento da necessidade de causar surpresas (embora certo aplauso, claro, seja recomendado).

O que ocorre, contudo, é minimamente confuso, porque é com consciência que continuamente imponho marcas de gêneros ficcionais neste texto que deveria ser não-ficcional, coisa que, para a maioria dos pesquisadores, parecerá simplesmente encheção de linguiça, pois a linguagem clara e objetiva é parte do discurso historiográfico (quer dizer, tornou-se parte, a partir de dado momento, a partir de certa disseminação do que é o discurso historiográfico), e se no discurso historiográfico - cujo dever é narrar fidedignamente o ocorrido - tudo que pareça demasiado literário no historiográfico, infelizmente, por mais avançadas que estejam as discussões sobre as relações entre a história e a ficção, e que se escrevam longas teses e artigos sobre o assunto, a verdade é que o literário, quando surge dentro do historiográfico, é ainda assim lido como ornamento, excedente desnecessário, parafernalha que atrapalha a manifestação de alguma coisa que costumam ter dificuldade de definir, mas que pode ser o lógos, o discurso verdadeiro, mas como a maioria dos historiadores estão cultivados em certo positivismo tão difuso que já nem mais percebem atravessá-los, o literário vira empecilho para a objetividade que deveria caracterizar o discurso histórico, o que ainda irá se justificar pela necessidade das pesquisas terem uso dentro da comunidade acadêmica, porque o conhecimento deve ser capaz de circular dentro deste mercado do intelecto em que uma tese irá servir de tijolo para uma próxima tese!, e que assim será construída enfim esta torre de babel em que todas línguas estarão reunidas - a torre será provavelmente construída na dependência de alguma universidade norte-americana por meio dos papers de estudiosos do mundo inteiro, mas que contudo residem fora de seus países e escrevem em inglês (os tijolos propriamente ditos serão colocados por algum pedreiro imigrante ou qualquer trabalhador que aceite um salário miserável -...

Não me espanta que não compreendam o poder epistemológico e retórico de não somente bem-escrever - escrever bem é entregar um livro que fique entre os trinta mais vendidos de alguma Casa-grande das Letras ou qualquer editora que venda porcarias -; não me refiro ainda ao de “bem-conduzir” ao leitor pelas duras páginas científicas, e assim concorrer com os jornalistas e garantir ao historiador a participação no mercado editorial, ou ainda, nas novas mídias que a internet torna cada vez mais importante: youtube, podcasts, tik-tok, etc… Me refiro a uma coisa mais séria, que embora possa ser mais facilmente ignorada por alguém que faz pesquisas estatísticas, por biólogos que observam a divisão celular e simplesmente fazem seu registro, por estudiosos da teoria do caos ou do comportamento estranho que possuem as partículas minúsculas que hoje acreditamos explicar nossas vidas: átomos, elétrons, neurônios, serotonina, e os tantos outros que não sabemos sequer nomear…

Se tais ofícios possuem tão mais facilidade para compreender a importância daquilo que é referido corriqueiramente como “forma literária”, um historiador, cujo dever é relatar aquilo que se passou no passado - realizar, portanto, uma historiografia, uma escrita da história… - como afinal podemos não apenas ignorar os impactos de tudo que os estudos literários e o mais importante: a literatura, produziu ao longo dos últimos séculos? E não, não me refiro somente a tomá-las como objetos de estudo.

Se no século XIX e XX os escritores tiveram que defender a execução de uma literatura de vanguarda, penso que o mesmo deveria ser feito pelos historiadores: a defesa de uma historiografia de vanguarda. Que não abandone o rigor, que não abandone tudo aquilo que pretende fazer de nosso ofício um saber capaz de participar de uma comunidade acadêmica, e enfim, as características que - se não autorizam chamá-la de científica -, ainda nos fazem pensar em termos de uma ciência histórica… Mas não seria a literatura também um tipo específico de ciência? Não são os poetas afinal detentores de um gênero de saber? A história, cuja imprecisão de seu discurso fez muitas vezes que fosse igualada à retórica, foi poucos séculos colocada em um espaço próprio: mas lembremos não somente de nossas origens, e se o fim da retórica significou o nascimento da literatura, e que dela agora somos irmãos, que isto não seja lido pelo viés negativo.

Que compreendemos os poderes e os saberes do literário; melhor não negar esta proximidade, e querer correr de volta para os braços da ciência natural. Proponho um outro caminho, um tanto estranho, talvez, mas que a mim faz bastante sentido: que compreendemos a ficção não como falsidade ou ornamento; que compreendemos como a ficção também participa de alguma forma da verdade; e como a historiografia também partilha destes ainda estranhos poderes que pressentimos, mas que desconhecemos, e que chamamos por muitos nomes: poesia, literatura, ficção, retórica… e até mesmo, pelos mais astutos inimigos, de mentira


sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...