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terça-feira, 5 de novembro de 2024

sobre uma psico-episteme em FLORESTAN FERNANDES: o saber universal do burguês ascendente

Caracterizemos brevemente os traços psico-epistêmicos de um Florestan Fernandes. Tal empreendimento não é ocioso, já que, ao invés de nos referirmos a idiossincrasias subjetivas, como que fantasias ou ideologemas que, no ato do conhecimento, seriam o resíduo da produção objetiva, estamos aqui a determinar a psicologia como uma condição para o próprio conhecimento formulado. Esse tratamento psicológico dado ao estudo do conhecimento, ao invés de interditar a possibilidade da verdade objetiva e universal, oferecendo a impossibilidade do conhecimento - necessariamente subjetivo e parcial -, procura sobretudo entender como essas espécies de condicionantes psicológicas se articulam diretamente com a matéria ou conteúdo do saber. Ou seja, como que o saber, ao invés de ser comprometido ou deteriorado pelas disposição subjetivas - suas paixões e afetos -, são, na verdade, possíveis somente neles e por meio deles.

O exame do caso de Florestan Fernandes, portanto, nos serve como ocasião para testarmos essa perspectiva que chamamos de psico-epistêmica, deixando ao leitor a avaliação de sua pertinência para uma história da teoria e das práticas intelectuais, que, à despeito do realce monográfico ou personalista que aqui parecemos impor, deve articular, sobretudo, uma teoria histórica ou social de tais práticas teóricas. Isso implica que as subjetividades, e assim, esse campo de investigação que chamamos de psico-epistêmico, não deve ser tomado como meramente biográfico ou individual, muito embora aqui tomemos uma biografia como ponto de partida. O que pretendemos sugerir é que, ao invés de uma irredutibilidade ao caso concreto e particular, as subjetividades devem ser avaliadas desde a perspectiva de sua interação, de forma que, em nível metodológico e pragmático, a biografia de um sujeito como que evidencia as lacunas e recalques manifestos na escrita de um outro. Essa perspectiva, assim, nos leva em direção a um conceito antes de escritura (cf. Roland Barthes, O grau zero da escritura), em que a subjetividade se vê imposta, desde esse sistema de relações que chamamos de escritura, a tomar posições, ao invés de criar-se a si, autonomamente. Por isso que estamos sobretudo a tomar as subjetividades não como referentes a uma mente individual, mas pertinente a um sujeito transcendental e histórico, cuja totalidade ultrapassa os dados biográficos, de forma a insinuar essa totalidade escriturária em que tal biografia seria somente expressão de uma determinada posição.

Essa longa digressão teórica visa, sobretudo, a introduzir essa nota sobre o caso de Florestan Fernandes. Segundo nossa impressão, tomado de seus textos teóricos sobre sociologia, mas também dos relatos autobiográficos do próprio, encontramos uma convergência entre a mitologia liberal da ascensão social - chamemos isso de mito da democracia social, em que as classes baixas tem possibilidade de ascender econômica e socialmente -, e uma epistemologia que, fundada sobre o conceito de ciência empírica e objetiva, procura instalar o saber sobre um ponto de vista universal e cosmopolita, feito à despeito das subjetividades e, mesmo, contra as suas vaidades e preconceitos.

Explique-se brevemente que a trajetória de Florestan Fernandes, não obstante a origem proletária ou serviçal - enfim, sua origem plebeia -, se inscreve perfeitamente nessa mitologia burguesa que, por meio do trabalho duro, vence todas as barreiras e ascende social e culturalmente.

Ao contrário do que me parece sugerir as mitologias de alguns cientistas sociais das gerações anteriores, associadas ao bacharelismo da primeira república e aos laços senhoriais e aristocráticos, o saber de Florestan Fernandes se formula não como uma produção do sujeito - coisa que, nesse ponto específico, igualaria a produção da verdade cientifica com a criação da obra artística enquanto expressão romântica da subjetividade singular -; mas em Florestan Fernandes a ciência se constitui não sobre as possibilidades de um gênio dotado de aristocrático talento natural, mas sim do árduo trabalho crítico e analítico do profissional sobre os materiais empíricos. Oferecidos universalmente enquanto dado, porção que, à despeito das dispersões representadas pelo tempo e espaço - são eles os fundadores da subjetividade -, são os mesmos para qualquer homem de qualquer origem ou condição. 

A ciência e seus padrões epistêmicos, nesse sentido, estão atravessados por uma espécie de subjetividade burguesa, democrática e liberal: a universalidade exegética, possível à razão mais comum, se formula como oposta ao esoterismo aristocrático que animavam os antigos salões.

quarta-feira, 10 de julho de 2024

um realista

a definição de inteligência, razão ou verdade a partir da adequação precisa da subjetividade às relações objetivas, que hoje organiza a prática de clínicas e psicólogos, possui sua razão no seio de uma sociedade naturalista como a capitalista. as correspondências entre a teoria de charles darwin e o liberalismo inglês foram muito rapidamente vistas por karl marx, não obstante a admiração deste pelo biólogo. uma teoria como a seleção natural, que determinava o sucesso e multiplicação estatística das formas de vida mais aptas às duras condições de vida, se por um lado é uma descrição cínica, sem desembaraço, da vida sob o imperativo do capital, por outro lado, é a lição por baixo da capa de auto-ajuda, muitas vezes açucarados, dos psicólogos e psicólogas que pretendem chamar de volta seus improdutivos pacientes à realidade das coisas (ou seja, a realidade do mercado, da produção). e quem irá dizer que estão objetivamente errados? não é, afinal, um corpo burguês que se recusa ou é incapaz de trabalho um corpo doente? vejam bem: um corpo aristocrático análogo é perfeitamente saudável, mas o burguês - e claro, mais ainda, o proletário - é definido como essa subjetividade economicamente produtiva, que deve desejar ser independente, constituir sua história de sucesso, ser self-made man, etc. que devem fazer os psicólogos e clínicos em geral não sei, mas sua reação é dada desde essa condição de enfermeiros do capital, remediadores de subjetividades darwinistas, que no entanto não se adequam às necessidades - seja necessidades econômicas, ou seja, objetiva, de conquistar dinheiro e meio de subexistir, seja as subjetivas, as demandas feitas para si próprio -. 

o castor, afinal, precisa, antes de mais nada, cortar madeira e montar seu dique para existir. deixo no ar, no entanto, o que seria o ser humano para além desse castor exemplar, completamente saciado no gozo do trabalho que aprendeu e deseja poder amar.

sábado, 15 de junho de 2024

mais uma revisita ao brasil de gilberto freyre

depois de muito tempo voltei a ler gilberto freyre. "sobrados e mucambos". havia me esquecido como é estranha sua sociologia: no desarranjo que faz com a teoria social, nos cortes e ligações entre conceitos antigos, criação de outros, cria a impressão não só de uma individualidade de estilo ou teoria, mas também de uma individualidade de brasil. a impressão que me causou, depois de um bom tempo sem visitar seus livros, é de que a paisagem traçada produz um efeito etnográfico, de enviar o leitor a uma região estrangeira, diversa daquelas construídas pela sociologia corrente, europeia. a aproximação da sociologia com o gênero etnográfico me parece se relacionar com a liberdade ao mesmo tempo formal e teórica dos etnógrafos: submissos menos às convenções (formais e teóricas) do gabinete científico do que aos impulsos orientados pelas impressões do campo. é claro que, para uma história do brasil patriarcal, falar em "campo" é um pouco impróprio, mas, a partir da teoria proustiana, meditativa, que atravessa a história de gilberto freyre, o campo poderia ser entendido em sentido duplo: tanto aquele que prolonga romanticamente o passado no presente vivido, e o arcaico seria reencontrado, em seus restos e ruinas, no presente moderno, mas também no próprio corpo do pesquisador, gilberto freyre, que seria parte dessa história sentimental brasileira, dessa sucessão de afetos e desejos regionalmente contidos, fisicamente postos a circular, socialmente orientados, que constituem os sujeitos moventes pelos espaços do território-nação. o corpo seria então uma espécie de campo: o fato de servir-se de si como documento, dos sentimentos, memórias de menino, medos, traumas, desejos eróticos, enfim, as experiências brutas do sujeito, não seria impedimento de ciência, mas forma legítima de formulá-la dentro desse nível etnográfico, da particularidade cultural, que escapa às sociologias generalistas de matriz europeias. o resultado desse e outros procedimentos, como disse de início, será uma sociologia estranha por não ser estrangeira: estranheza que, não obstante, de alguma maneira serve ao reconhecimento do nacional, do subjetivo, das experiências vividas trans-historicamente por brasileiros. ou, pelo menos, diante da disseminação da obra gilbertiana no imaginário de tantas outras, poderiamos dizer que ela atingiu sua eficácia de criar um mundo potencialmente brasileiro, capaz de preencher as fantasias, ao menos, das classes relacionadas nostalgicamente com o patriarcado.

sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...