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sábado, 1 de junho de 2024

A INTRODUÇÃO DO SABER

1.

Escrever sobre um livro, ou melhor, simplesmente lê-lo, pensá-lo, se entregar distraidamente a qualquer uma destas atividade banais cuja aparente ausência de movimento sugere antes o estado de repouso e de lazer do que o ávido trabalho, é e talvez seguirá a ser, para toda uma nova geração destinada pelos aparelhos acadêmicos ao trabalho de escrever, ler e pensar, um hábito estranho, muitas vezes exercido à contragosto. É estranho para uma criança de classe média, descendentes talvez de escravos ou de imigrantes pobres, ou fruto de uma linhagem de trabalhadores liberais, saber manejar um livro. Sua atenção foi condicionada por desenhos animados, fóruns na internet, filmes hollywoodianos, relacionamentos amorosos, vídeo games e, em níveis convencionalmente intelectuais, provas, aulas, vestibulares, exercícios que talvez lhe tornem adequado aos problemas da engenharia e da computação rudimentar, do exercício de escritório, mas que, diante deste artefato estranho, o livro, sempre reconhece certa estranheza.

2.

Mais cedo, uma amiga que conheço faz pouco tempo, e por quem rapidamente cultivei um perigoso erotismo, disse que sua busca por conhecimento é como a tentativa de reencontrar o falo para sempre ausente. 

O erotismo se torna perigoso e verdadeiro quando me sinto assim, aberto, em carne viva aos pensamentos e línguas estrangeiros, que não fazem parte de mim. Por meio de uma pessoa que conheço a alguns dias passo já a pensar minha própria vida, de suas palavras faço cadinho para meu pensamento.

3.

Para mim os livros, os saberes, nada disso me parece natural, e mesmo depois de quase dez anos de estudo, não me sinto introduzido a esse mundo, pelo menos não da forma que um herdeiro legítimo pelo seu pai foi introduzido. 

quinta-feira, 30 de maio de 2024

arthur de azevedo, escritor modernista

já falou-se de arthur de azevedo como um cronista oficial da cidade. o título é justo, já que sua prosa curta, publicada sob os títulos mais despretensiosos e corriqueiros em jornais populares, introduziu as classes médias em nossas letras: tanto como um novo público-leitor, diverso daquele culto dos salões e faculdades, como também enquanto matéria de sua ficção, fazendo a linguagem erudita dos gramáticos se encontrar com os assuntos populares. nesse sentido, é certamente um escritor modernista, de obra futurista, antecipadora da desintegração da velha língua palavrosa e eloquente do antigo império, e introdutora da sintaxe apressada e telegráfica jornalística dentro da prosa literária. a posição de arthur de azevedo enquanto literato estaria sempre marcada pela tensão entre o popular e o erudito, entre sua literatura menor e o senso estético das academias:

desde que pela primeira vez me aventurei a rabiscar nos jornais, observei que a massa geral dos leitores dividia-se em dois grupos distintos: um muito pequenino, de pessoas instruídas ou ilustradas, que preocuravam em tudo quanto liam gostoso pasto para os seus sentimentos estéticos, e o outro numeroso, formidável, compacto, de homens do trabalho,  que iam buscar na leitura dos jornais um derivativo para o cansaço do corpo, e exigiam que não lhe falassem senão em linguagem simples, que eles compreendessem. fui assaltado pela preocupação de lhes agradar.

"o que prejudicou a arthur de azevedo", disse tristão de ataíde, com seu senso aristocrático de arte, "foi a sua extrema facilidade de escrever, bem como a necessidade de viver das letras". para tristão de ataíde, era lamentável não a literatura de arthur de azevedo, mas que seu talento estivesse à serviço de fins tão parcos: escrevendo em velocidade impressionante, a poética de arthur de azevedo dispensava o estudo cuidadoso, a correção da frase, a composição rebuscada. não por acaso seu estilo era direto, telegráfico, uma prosa simples que, se não obstante gramaticalmente correta, no senso de estilo era pobre, mas de uma pobreza suficiente para que pudesse ao mesmo tempo escrever velozmente, sem falhar as orações, e em linguagem parca e simples, capaz de agradar seu público fiel de todos os dias.

arthur de azevedo tinha consciência de que, se em sua pena a literatura se fazia com matéria menor, tanto na linguagem simples quanto nos seus temas pequenos burgueses, assim no entanto atingia a dimensão gigantesca do produto de massas: "não solicito a glória nem a imortalidade, mas tenho consciência de não ser um colaborador inútil"; e aquele escritor, oriundo das classes médias, sem esconder certo desdém dos estetas sisudos, de palavreado raro e insosso que abundavam entre os salões da alta sociedade, afirmou: "escrevo, não para os cafés da rua do ouvidor", onde se escondiam esses letrados, "mas para a cidade inteira. gabo-me de ter leitores em todo o país, e como os sirvo com a melhor gramática de que disponho e com todo o bom senso de que sou capaz, conservo tranquila a minha consciência de jornalista".

apesar de suas ironias, arthur de azevedo, como se vê, não deixa de reivindicar valor pedagógico em sua literatura que, não obstante menor, era pelo menos bem servida em termos de escrita correta e de boas lições de moral. se era um poeta sem poesia ou um literato sem literatura, se era chistoso, fazia uso abundante do tom burlesco e constantemente terminava suas histórias com desfechos risonhos, arthur de azevedo contudo tinha a virtude de levar a literatura a um público inculto que aqueles versos bizantinos e superiores dos demais poetas jamais alcançariam. por meio de uma matéria que admitia ser pobre, mas também a possível e adequada ao ritmo industrial do jornal e a cultura de seus leitores, arthur de azevedo escreveu sua literatura.


segunda-feira, 20 de maio de 2024

da eugenia democrática fascista

A eugenia, conforme delineada no primeiro livro de Francis Galton (Hereditary Genius), poderia ser caracterizada como uma ciência aristocrática, anti-democrática e anti-burguesa. 

A democracia liberal burguesa corresponderia ao governo dos comuns, isto é, daqueles desprovidos de ascendência nobilitária e árvore genealógica. Segundo Galton, haveria correspondência entre os extratos extraordinários de uma raça - os melhores - e as classes superiores; estas são superiores por conta de seu patrimônio genético, herança familiar geracionalmente transmitida. Em passagem que lamenta a Revolução Francesa por ter extinguido os melhores ramos familiares franceses se mostra com ainda mais clareza a oposição de sua eugenia com os valores da burguesia. (p. 34) Trata-se, afinal, de uma ciência que decifra, pela distribuição dos talentos genéticos feitos conforme a vontade soberana da natureza, a diferenciação de classes, a separação entre dominados e dominantes pela lógica de inferiores e superiores. Como em Aristóteles, o senhorio e a escravidão seriam dados naturais. 

A eugenia somente poderá se aburguesar, se democratizar, e se liberalizar como parte de um mundo de flutuações sociais do capital (a tábula rasa, os mandamentos de igualdade, liberdade e fraternidade, o mito do self-made man, sem origem e sem capital) pela experiência fascista da raça, que funda uma comunidade biológica, um grund genético de um povo integrado sob uma nação sob o símbolo da nação. Essa eugenia racial, em sua especificidade democrática, se difere da eugenia aristocrática proposta por Galton, ainda que não lhe seja necessariamente contrária: se assemelham do ponto de vista de naturalizar a divisão de classes, já que, como sabemos, o fascismo as integra como parte de um mesmo organismo social, como se fossem os órgãos hierarquicamente organizados em corpo segundo as finalidades impostas por um cérebro totalitário e onisciente.

sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...