quarta-feira, 29 de maio de 2024

NECRÓFILO

dizem que olavo bilac era, talvez por ter alimentado seus devaneios com muita literatura. era uma fantasia bem comum no século XIX, essa do cadáver, no decadentismo romântico. houve tempo que me entreguei às virgens dólicas cadavéricas de álvaro de azevedo. mistura de fantasia de morte com branca europeia, de virgem maria com depravação erótica. nada de paisagem brasileira. quando muito, para ironizá-la. nostalgia bironesca de castelos ingleses, de chuva e de filosofia, que por aqui era escassa. parece muito adequado para uma história, mas nessa época me relacionei com mulher chamada beatriz, cujo incofesso desejo era de ser um cadáver. bulímica, de ossos amostra. deprimida por traumas de infância, cortava os braços e principalmente nas coxas. os talhos esbranquiçados ficavam bonitos nela. tinha um gosto acentuado pela hoje polêmica asfixia erótica, por alcovas de motel barato ou chão de madeira duros como esquifes. durante o ato, não se movia, em imobilidade que remetia ao rigor mortis. não falava em momento algum. seu orgasmo era como o canto de ave noturna, soturna e breve a romper na noite iluminada por vela de alguma janela de poeta acesa na madrugada.

quarta-feira, 22 de maio de 2024

LAMARCK e DARWIN

Para Lamarck, as modificações morfológicas cuja sucessão caracteriza a história natural são respostas ativas do organismo perante as pressões do meio. Para Darwin, o meio somente selecionará as modificações aleatoriamente produzidas: não existe, no darwinismo bruto, o movimento da intenção característico do uso e desuso de um órgão, já que as características adquiridas pelo organismo ao longo de sua vida não são transferidas para a prole. Para Darwin, o meio somente age no processo da evolução de forma negativa: pela alocação de obstáculos e recursos que afetam a competição inter e extra-espécie, fará a seleção, entre os caracteres surgidos aleatoriamente, espontaneamente, daqueles que estão aptos a sobreviverem. A natureza, por meio desse mecanismo de seleção que prejudica as formas de vida inferiores, selecionará somente as modificações dos mais aptos. Dessa competição sucessiva, resultará o processo de evolução. A seleção natural darwinista, assim, minimiza a ação ou intenção do organismo como parte da evolução, já que as modificações que imprimem aos seus caracteres biológicos não seriam transferidos às proles: a evolução é um fenômeno contingente. Lamarck, ao contrário, acredita em uma concepção de evolução em que a vida, por sua própria vontade, impõe contra a natureza seu destino evolutivo.

É oblíquo precisar a opinião de Darwin sobre a transmissão dos caracteres adquiridos, já que, não obstante não descarte a sua possibilidade, sugere que sua preponderância na evolução seria mínima quando comparada com a seleção feita pela própria natureza. Como ele explica: “Se as variações corretas ocorressem, e nenhuma outra, a seleção natural seria supérflua”. Ou seja, se a prole herdasse sempre os caracteres desenvolvidos a partir do estímulo do ambiente, não faria sentido falar em seleção natural, já que não existiria o que selecionar. A seleção da natureza, afinal, precisa partir da diferenciação entre melhores e piores, entre mais aptos e menos aptos. Deveria existir alguma forma de se limitar a transferência progressiva dos caracteres desenvolvidos pelo organismo em sua interação com o meio ambiente. Para Darwin, “a ocorrência das variações segue leis naturais que não estão vinculadas a nenhuma finalidade”: é um processo, como já foi escrito, contingente, que dispensa a participação ativa do organismo. A seleção natural somente existe quando as gerações se descontinuam: quando se estabelece perdas e ganhos entre elas.

CORREÇÃO INFINITA

 A teoria naturalista de Lamarck é precisamente a da abstração da natureza empírica em uma série abstrata constituída por meio da linguagem. Isso nos leva a uma série de problemas.

Por um lado, perde-se, em relação ao conhecimento feito pelo contato imediato com os seres, uma irrecuperável porção de verossimilhança, já que a língua elaborada, por melhor que seja, jamais será perfeitamente igual às ricas formas da natureza. Essa perda infeliz é contudo necessária, porque somente nela funda-se o conhecimento, já que este, para Lamarck, consiste na ordenação das propriedades infinitas da natureza. 

O infinito é in-ordenável: uma reta infinita pode ser cortada em infinitas porções. Somente pelo sacrifício dessa totalidade inapreensível será possível o fundamento de uma ordem verdadeiramente conhecível. Pela língua o homem ganha em comunicabilidade daquilo que, pela e na natureza mesma, infinita, é incomunicável. É necessário esse empobrecimento por meio da língua para que o mundo se torne matéria de conhecimento entre os homens.

Resta oculto, no sistema de nomes no qual se funda a história natural de Lamarck, um modelo matemático de conhecimento, que vai desde a extensão infinita da natureza até aterrissar no finito perfeito do ponto. A língua, intermediário entre a natureza e o número, por sua natureza e finalidade, infelizmente oscila entre a riqueza do real e a precisão do matemático. Primo pobre de ambos, é forma precária, que não tem nem a potência da comunicação perfeita do número, nem a realidade em si mesma do mundo. 

Se a língua ainda é instrumento necessário para o conhecimento, é porque o conhecimento é sobretudo questão de entendimento. Uma questão de comunicação; ou ainda, como colocará Foucault em As palavras e as coisas, de distribuição de analogias entre as partes da natureza, cujo modelo mais claro - como já se disse, mas não fará mal enfatizar - é a igualdade matemática. A gramática geral da época clássica, por meio do núcleo verbal responsável pela ligação entre o sujeito e predicado, buscaria estabelecer uma operação de definição do indefinido por meio da determinação precisa do nome, como se este fosse, para o gramático, o produto verbal daquilo que, para o matemático, consiste na resposta de uma equação (x = y). 

O nome, para o sistema de Lamarck, deve ser expressão tão exata quanto possível for. A sua filosofia zoológica se refere a um saber teórico capaz de compreender a extensão infinita do real, para assim melhor abstrair um sistema de nomes, cuja ordem taxionômica represente aquela infinidade indizível com maior verossimilhança.

Só que, por suas próprias limitações, por habitar o limbo entre o infinito e o finito, o nome estará sempre fadado a derrapar: se, em comparação com a natureza em si mesma, o nome sempre deixará um resto, ou ainda, sempre terá um algo de inverossímil, quando em comparação com a matemática, o nome igualmente falhará, pois é consideravelmente impreciso, incapaz de fundar analogias tão perfeitas e exatas quanto as expressas pela série abstrata da aritmética. 

A língua será fadada a ser ou deformação ou desmedida; sempre, incontestavelmente, uma entidade negativa: nem vida nem número. Se o objetivo da língua é o entendimento, a fundação de um sistema de diferenças passíveis de comunicação exata do mundo, sua contraparte, portanto, será sempre a correção infinita. Prima pobre da natureza e da matemática, de uma retira o poder de analogia, da outra, a extensão impercorrível. 

Todo sistema de conhecimento baseado na precisão da linguagem será, invariavelmente, um sistema de correções. Por conta disso que o naturalismo de Lamarck, sempre flutuante entre a artificialidade da classificação e o infinito do real, somente poderá ganhar solução pelo termo das academias de ciência, cujo objetivo será, por meio de sua soberania, controlar os desacordos inevitáveis da linguagem. Isso quer dizer que a ciência, enquanto fundamentado no nome como meio de ordenação das partes do real, está fadada a um problema gramatical que, na verdade, é de natureza política: o perpétuo inconveniente desacordo dos diferentes sistemas de línguas, os sucessivos reparos e suplementos da linguagem de um sobre o outro. Como o próprio saber jamais consegue determinar por si mesmo a ensejada língua perfeita, será necessário extinguir as diferenças indesejadas por meio da força, para assim, por meio de uma língua despótica, edificar essa utopia do conhecimento.



segunda-feira, 20 de maio de 2024

da eugenia democrática fascista

A eugenia, conforme delineada no primeiro livro de Francis Galton (Hereditary Genius), poderia ser caracterizada como uma ciência aristocrática, anti-democrática e anti-burguesa. 

A democracia liberal burguesa corresponderia ao governo dos comuns, isto é, daqueles desprovidos de ascendência nobilitária e árvore genealógica. Segundo Galton, haveria correspondência entre os extratos extraordinários de uma raça - os melhores - e as classes superiores; estas são superiores por conta de seu patrimônio genético, herança familiar geracionalmente transmitida. Em passagem que lamenta a Revolução Francesa por ter extinguido os melhores ramos familiares franceses se mostra com ainda mais clareza a oposição de sua eugenia com os valores da burguesia. (p. 34) Trata-se, afinal, de uma ciência que decifra, pela distribuição dos talentos genéticos feitos conforme a vontade soberana da natureza, a diferenciação de classes, a separação entre dominados e dominantes pela lógica de inferiores e superiores. Como em Aristóteles, o senhorio e a escravidão seriam dados naturais. 

A eugenia somente poderá se aburguesar, se democratizar, e se liberalizar como parte de um mundo de flutuações sociais do capital (a tábula rasa, os mandamentos de igualdade, liberdade e fraternidade, o mito do self-made man, sem origem e sem capital) pela experiência fascista da raça, que funda uma comunidade biológica, um grund genético de um povo integrado sob uma nação sob o símbolo da nação. Essa eugenia racial, em sua especificidade democrática, se difere da eugenia aristocrática proposta por Galton, ainda que não lhe seja necessariamente contrária: se assemelham do ponto de vista de naturalizar a divisão de classes, já que, como sabemos, o fascismo as integra como parte de um mesmo organismo social, como se fossem os órgãos hierarquicamente organizados em corpo segundo as finalidades impostas por um cérebro totalitário e onisciente.

sábado, 18 de maio de 2024

ARREBOL QUADRADO 13# a máquina e o corpo

Nina Rodrigues adiantou o bisturi na direção de uma coelha grávida, o sanguíneo  abdômen aberto diante de seus olhos serenos. Numa incisão precisa, que pelos anos de Faculdade há muito estava habituada, extraiu do útero uma placenta. Com cuidado, depositou o bolo carnoso do anestesiado animal em sua cavidade peritoneal. 

Com o bisturi ainda em punho, olhou a hora no relógio de parede, que girava, como sempre, o perpétuo mecanismo em seu sentido de círculo. Ainda era cedo. Precisava encontrar com Dr. Freud para as lições de psicologia, mas ainda tinha mais meia hora, tempo suficiente e até mesmo de sobra para terminar. 

Nina Rodrigues voltou então seus olhos para a coelha grávida; verificou que a placenta se enxertara, por conta própria, no intestino do animal, e que se alimentava normalmente, como se ali tivesse nascido. Satisfeita com o resultado, dirigiu-se aos ovários pequeninos, e executou uma operação chamada pelos médicos de ablação, em que se suprime a função do corpo lúteo de gravidez. Demoraram alguns minutos, mas as demais placentas ainda alojadas no útero, uma a uma abortam. Apenas a placenta anômala, situada na cavidade peritoneal, se manteve intacta. 

- Eis um exemplo no qual o intestino se comportou como um útero e, poder-se-ia mesmo dizer, mais vitoriosamente que as placentas, digamos, "naturais", disse, satisfeita, Nina Rodrigues a Gilberto Telles, seu assistente, que de perto observava tudo. Mantinha certo ar de desinteresse, que Nina Rodrigues interpretava como certo desdém. Quando Gilberto Telles, também conhecido pelo seu apelido de Sorriso falava, no entanto, sua voz era amável, contraste que, para ela, somente exagerava seu ar arrogante.

- Está me dizendo que discorda de Aristóteles?

- Ahn? 

A médica sentiu-se verdadeiramente confusa. Claro que havia lido Aristóteles, mas somente no colégio, quando se preparava para a carreira de medicina. Guardava alguma memória do que ensinavam os professores, mas no campo médico, há muito, ela sabia, os ensinamentos do velho estagirita eram mais que ultrapassados. Não podia entender, portanto, como em pleno século XX alguém poderia ter o trabalho de refutar Aristóteles, já que a própria história havia feito a gentileza de fazê-lo.

- O que a senhorita afirmou, explicou Sorriso, vai diretamente contra o que ensinava Aristóteles.

- Olhe, Telles, não sei como anda gastando suas noites, mas sei bem de uma coisa: não é lendo a filósofos de mil anos atrás que irá se tornar um bom médico.

- Não acha que exista sabedoria no passado?

- Evidente, mas a sabedoria tem hora. E agora - ela indicou a coelha, já acordada, que caminhava na mesa de dissecação - a hora é outra. 

Como muitos homens da época, Gilberto Telles cultivava menos o espírito e mais a afetação. Não era estúpido, como se vê, mas também não esquecia de que a inteligência é precedida por uma dimensão estética que lhe antecede e lhe prepara a recepção, assim como uma carta com brasões e belo envelope dispõe o leitor aos melhores sentimentos quanto ao que virá. Esse, talvez, fosse o defeito capital de Nina Rodrigues: não o deslumbramento com a ciência e a crença religiosa no progresso, que eram mais defeitos de época do que de individualidades; mas sim sua inocência diante da autossuficiência da razão em um mundo que funcionava irracionalmente. Sua honestidade absoluta diante do conhecimento que lhe impedia de perceber como saber por si mesmo era muito pouco, e embora por seu esforço tivesse chegado muito longe - mais longe do que qualquer um imaginaria chegar - dentro de sua área profissional, como ainda veremos, sua pobre inocência vedaria oportunidades e mesmo lhe faria ser passada para trás. 

Talvez sejam coisas relativas à educação, à formação. Filha de comerciantes, nunca foi educada para os ambientes acadêmicos: o discurso que aprendeu era destinado aos salões e salas de jantares. E mesmo esse, pobre criatura, sentia no seu íntimo mal assimilado. Quando via a desenvoltura que sua irmã agia diante das visitas, ou então a graça e elegância com que Lola Baruch era cortejada pelos rapazes, Nina Rodrigues se envergonhava. Ela estava no meio do caminho: entre um destino masculino - a Faculdade de Medicina - e um feminino - a Casa -, e por isso não estava em nenhum dos dois. Nina Rodrigues era, mas era pela metade. Havia se tornado alguém, mas havia, era inegável, se tornado errado. Infeliz nos dons cortesãos dos salões literários, sem jeito para visitar os teatros, a fala tropeçando quando tomava o discurso, tudo que fazia bem era com as mãos e olhos, era fechar a boca, se enfiar numa sala, dissecar animais, ler livros, escrever. 

Seu assistente, por isso, sentia-se injustiçado. Sabia que roubava a cena em qualquer evento público. Como estava submisso a essa vagabunda? Somente poderia estar de caso com Frederik, ele tinha certeza. E enquanto ela dissecava animais, olhava Nina Rodrigues dos pés a cabeça, avaliando seu tipo de mestiça. "O cumprimento jugulo-púbico de uns 13 cm; o xifo-epigástrico de uns 11 cm; epigástrio-púbico: 19 cm; xifo-púbico: 32 cm; jugulo-púbico: 46 cm; do membro superior: 50 cm; do membro inferior: 72 cm. Já o diâmetro transverso-torácico: 28 cm; do antero-posterior torácico: 18 cm; do transverso hipocondríaco: 25 cm; do antero-posterior hipocondríaco. 17 cm. do bi-ilíaco: 21 cm. Do abdômen superior: 5 cm, e o inferior uns 8 cm. O total uns 14 cm. O tórax deve ser de pelo menos 8 cm. O tronco, 26 cm. Membros de 133 cm. Pesa pelo menos uns 50 Kg. Altura de uns 160 cm. É um longetipo, como a maioria das mulatas. Estatura excedente da média, imagino". Não achava Nina Rodrigues feia, mas também não achava seu tipo bonito. Dr. Fréderik talvez gostasse. 

Primeiro aquela moça tímida, falando pouco, lhe pareceu desejável. Não era para se casar, apenas uma noite de diversão. Fez uma investida e foi recusado. O orgulho ferido abriu a porta para que desgostasse de Nina Rodrigues. Passou a observar como era pequena demais para que tivesse o cargo que tinha. Sentia-se muito satisfeito de, nos eventos que frequentavam juntos, era ele que brilhava, em conversas de salão, e não ela, não obstante fosse sua superiora. Voltavam juntos, e na carruagem, às vezes sentia a atmosfera ruim. Sabia que aquilo a humilhava.

Que podia fazer? Fora desde menino criado para aquilo. Lera os clássicos não só para ler, mas para que pudesse lhe empregar. Nina Rodrigues era estúpida: achava que conhecê-los era questão de saber, quando na verdade era questão de falar, de fazer seu saber parecer bem, fosse qual fosse seu conteúdo. Sentia, é verdade, alguma pena dela, mas naquela corrida de ratos não podia recuar até que fosse alguém. Fora, afinal, para isso que havia sido criado. Para ser um grande médico, quem sabe deputado, ou conselheiro particular do presidente. Não queria ser para sempre o serviçal de uma mulata que se meteu no mundo dos homens. Não iria recuar diante de sua fraqueza inata. De memória, recitou:

- "Olhando um pouco à frente vi o imortal mestre de todo homem de saber sentado em reunião filosofal. Honrarias todos vão lhe oferecer".

- Que se trata disso, afinal?

- Dante, no quarto canto do Inferno, descreve nessas palavras a Aristóteles: a ciência certamente se transforma, mas sua sabedoria seguirá até o fim dos tempos imortal. Onde Aristóteles errou foi para que pudéssemos acertar. E onde erramos, podemos buscar correção em seus acertos, mais sapientes ainda por estarem corretos mesmo com a desvantagem de mais de mil anos.

- Não sei aonde queres chegar. Não trato de Aristóteles, trato do sistema reprodutor de uma coelha.

- A natureza - diz ele em A Política - não procede mesquinhamente tal como os cuteleiros de Delfos, cujas facas servem para muitos usos, mas, peça por peça, o mais perfeito de seus instrumentos não é aquele que serve a muitos trabalhos, mas apenas a um.

- Se o que falas é verdadeiro, o velho estagirita parece ter confundido a maquínica faca com o orgânico corpo; é verdadeiro que melhor é a máquina quanto mais perfeita seja sua finalidade, mas para a entidade orgânica, é o oposto que é válido: melhor será o corpo capaz de muitos fins, e não somente um. Essa é a diferença entre corpo e máquina: e se a evolução engendrou o primeiro, é porque a finalidade perfeita do mecanismo, diante do jogo da sobrevivência, é inferior à inacabada e polivalente plasticidade do corpo.

Os dois então ficaram em silêncio. Havia certo constrangimento no ar. Nina Rodrigues examinou a hora e viu que já era melhor se preparar para sair. Mandou seu assistente arrumar tudo e trancar a porta do laboratório e foi na direção da casa de Dr. Freud.

sexta-feira, 17 de maio de 2024

o fim da razão

a preguiça ou falta de ambição racional, muitas vezes associada ao misticismo daquele gênero intuitivo, que se contenta com o momento de silêncio da razão, ao invés de simples resignação ou recibo de esterilidade intelectual, pode também ser avaliada como recusa de prosseguir pensando em tal direção, ao entendimento de que a razão - se não possui fim -, possui sim um final, um momento de encerramento e desfecho, em que se desliga dos antigos e esgotados objetos e anseios e se prepara a curva para seguir por um outro sentido, por enquanto ainda despercebido, talvez sequer imaginado, pela démarche incessante que arrasta todos praticantes do pensamento em uma direção.

quinta-feira, 16 de maio de 2024

O CÉLEBRE CONCURSO DE TOBIAS BARRETO

Quatro outros intelectuais inscreveram-se no concurso. O primeiro, José Augusto de Freitas, formou-se na Faculdade em 1879 e foi, mais tarde, deputado federal por seu estado, tendo participado da discussão do Código Civil. Ao candidatar-se, era tido sob a proteção do lente J. J. Seabra, posterior chefe político na Bahia, ascendendo, no período republicano, à direção do tradicional centro de ensino pernambucano. Nos começos da década de 80, era considerado, pelos estudantes, um dos professores mais reacionários, o que fazia circunscrever-se a colônia baiana as preferências por seu candidato. Os outros eram: Lomelino Drumond (diplomado pela Faculdade em 1972), Gomes Parente e Machado Portela Filho.

Alguns depoimentos dão-nos a adéia viva e palpitante do evento. O primeiro, de Graça Aranha, na época cursando o primeiro ano e recém-chegado do Maranhão, desajustado e ainda criança. assim registra o fato no livro de memórias que nos deixou incompleto: 

"Esse martírio obscuro, informe, ia cessar. Abrira-se o concurso para professor substituto da Faculdade. Foi o concurso de Tobias Barreto. Eu já havia iniciado os meus estudos na Academia. Era superior ao meu preparo, e professado sem clareza, sem o fluído da comunicação. José Higino, o pesado mestre spenceriano, nos enjoava e nós não o entendíamos. A outra matéria era o Direito Romano, mais compreensível; porém, que professor calamitoso era o velho e ridículo Pinto Júnior! O concurso abriu-se como um clarão para os nossos espíritos. A eletricidade da esperança nos inflamava. Esperávamos, inconscientes, a coisa nova e redentora. Eu saía do martírio, da opressão para a luz, para a vida, para a alegria. Era dos primeiros a chegar ao vasto salão da Faculdade e tomava posição junto à grade que separava a Congregação da multidão dos estudantes. Imediatamente Tobias Barreto se tornou o nosso favorito. Para estimular essa predileção havia o apoio dos estudantes baianos ao candidato Freitas, baiano e cunhado do lente Seabra. Tobias, mulato desengonçado, entrava sob o delírio das ovações. Era para ele toda a admiração da assistência, mesmo a da emperrada Congregação. O mulato feio, desgracioso, transformava-se, na arguição e nos debates do concurso. Os seus olhos flamejavam, da sua boca escancarada, roxa, móvel, saía uma voz maravilhosa, de múltiplos timbres, a sua gesticulação transbordante, porém sempre expressiva e completando o pensamento. O que ele dizia era novo, profundo e sugestivo. Abria uma nova época na inteligência brasileira, e nós recolhíamos a nova semente, sem saber como ela frutificaria em nossos espíritos, mas seguros de que por ela nos transformávamos. Esses debates incomparáveis eram pontuados pela contínuas ovações que fazíamos ao grande revelador. Nada continha o nosso entusiasmo A Congregação, humilhada em seu espírito reacionário, curvava-se ao ardor da mocidade impetuosa. Prosseguíamos impávidos, certos de que, conduzidos por Tobias Barreto, estávamos emancipando a mentalidade brasileira, afundada na Teologia, no Direito Natural, em todos os abismos do conservantismo. Para mim, era tudo isso delírio. Era a alucinação e que um estado inverossímil que eu desejava, adivinhava, mas cuja realização me parecia sobrenatural. Tobias Barreto fez a sua prova de preleção oral. O orador atingiu a minha sensibilidade no auge da eloquência. Quando terminou, recebeu a mais grandiosa manifestação dos estudantes, a cujo entusiasmo aderiram os lentes unânimes".

Gumersindo Bessa, em carta dirigida a um conterrâneo, aluno da Faculdade de Direito de São Paulo, e posteriormente divulgada pela imprensa de Aracaju, registra as suas impressões no próprio decorrer do concurso. Informa, de início, que "avaliar-se em mais de mil as pessoas que têm afluído à sala dos graus não é exagero. É um barulho enorme desde as 7 horas da manhã, na Academia, para achar-se lugar". As provas orais consistiam em arguição realizada pelos próprios candidatos. Assim, no primeiro dia, coube a Lomelino Drumond inquirir a Tobias Barreto em matéria de Direito Eclesiástico. O sergipano aproveitaria a oportunidade para defender algumas de suas idéias a propósito da religião, para escândalo da banca examinadora. No segundo, a arguição estaria a cargo de José Augusto de Freitas. "Reuniu-se a baianada em grupo", prossegue o missivista", para aplaudir o jovem sábio. Os sergipanos e os maranhenses nos reunimos de outro lado para aplaudir o Tobias; e o negócio assumiu proporções de uma luta, que ainda continua e terá tristes consequências, por termos contra nós o Seabra, que se julgou desacatado pela nossa atitude a favor de Tobias". Travou-se a polêmica em torno à validade do Direito Natural. "O Freitinhas", acrescentou Gumersindo Bessa, "empregou um termo que ignorava, para exprimir que era da velha escola, da antiga filosofia. O Tobias ridicularizou-o sem piedade. A baianada retirou-se confusa e envergonhada, e o sergipano levantou-se coberto de aplausos. No outro dia, arguiu Tobias por sua vez. Foi um dia para sempre memorável".

Diversos problemas estiveram em debate, temas, em particular, filosóficos. Segundo o mesmo depoimento, "encareceu o sergipano de José Augusto de Freitas que definisse o que entendia por entidade metafísica. 'entidade metafísica é tudo o que precede e fica independente da sociedade e de suas leis positivas', respondeu Freitas. (Bravo)

"'A época terciária e quaternária mesmo, precederam a sociedade e ficam independentes de suas leis positivas, logo, as épocas terciária e quaternária são entidades metafísicas'. (Gargalhadas gerais.) Aí o Freitinhas empalideceu e disse: 'Isso não é lógica'.

"O Tobias disse: 'É muito boa lógica, Sr. Dr.; mas a lógica não entra em todas as cabeças, porque, se ela entrasse em algumas, produziria o mesmo efeito o que havia de produzir um touro bravo que entrasse em um armazém de vidros' (Gargalhadas)."

O trecho transcrito indica que o futuro professor da Faculdade recorreu sobretudo ao ridículo, durante o célebre concurso, para combater os pontos de vista dominantes no seio da Congregação.

"Chegando a vez do candidato Machado Portela de arguir Tobias", continua Gumersindo Bessa, "não se atreveu a fazê-lo. Limitou-se a pedir-lhe que explicasse a tese, segundo a qual, 'de todos os sistemas filosóficos, só o monismo pode nos dar a verdadeira concepção do direito'".

Eis como o autor da carta reagiu à oração de Tobias Barreto: "Esta é uma verdadeira novidade entre nós, e foi essa a razão pela qual todos aplaudiram a lembrança do Portela. Indaga por aí, por São Paulo, se há um só estudante, um só lente, que tenha ouvido falar em monismo. Ninguém aparecerá. Se duvidas, atira aí no meio da Academia a palavra simbólica. Suporão que tu foste arrancar da boca da esfinge, pois aqui não houve um doutor que a soubesse. Hoje todos sabem que existe um sistema filosófico chamado monismo e qual seja ele. Aprenderam de Tobias, o espírito mais adianto deste país".


MERCADANTE, Paulo. PAIM, Antonio. "Introdução". In: BARRETO, TOBIAS. Estudos de filosofia. 3º edição. Rio de Janeiro: Record; Brasília: INL, 1990, pp. 41 - 43

 

 

sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...