se na antropologia do XIX o racismo era parte da dimensão ontológica da vida - a superioridade entre raças era inscrita já na ordem natural -, na obra de gilberto freyre ela se relativiza em uma hermenêutica dessa natureza. ou seja, mesmo que existam diferenças entre as raças, o racismo é um fenômeno das culturas. gilberto freyre mantém ainda a primazia da teoria racial dentro de sua sociologia; recusa, no entanto, que o valor dessas diferenças não sejam interpretadas culturalmente, a partir dos variados contextos históricos e mesológicos em que vivem.
quinta-feira, 16 de maio de 2024
sobre o nome
li por aqui uma crítica ao estilo nominológico, à importância demasiada da terminologia nos estudiosos pós-estruturalistas; evidente que existem aberrações, mas não me parece negativo se abrir ao poder de nomear, des-nomear e re-nomear, de explorar o nome como espaço cerrado de pensamento. como se dentro de um nome, e principalmente nos deslocamentos de sentido feitos por meio dele - usos impróprios - se produzissem fenômenos análogos a silogismos. ao contrário deste, contudo, a nomenclatura guarda para si o privilégio e maldição da inconclusão: malograda as tentativas das línguas benfeitas, compostas de termos perfeitamente definidos, os nomes, ao contrário do centrípeto silogismo, em incessante movimento no sentido da metáfora, das atribuições retóricas, fora de sentido, vem sempre a confundir a esperada designação em uma outra. como se, além do que quer dizer, todo nome carregasse um campo potencial do que ele pode vir a ser. se o silogismo manifesta o poder judicativo da linguagem (isso é isso, isso não é isso, etc), o nome, não obstante, também é capaz de juízo: somente um juízo presidido por outras leis, outra forma de pensar.
terça-feira, 14 de maio de 2024
as multiplicação das origens
segunda-feira, 13 de maio de 2024
notas nada originais sobre o original
Foucault afirma que o saber consiste em referir (a) linguagem à linguagem. (As palavras e as coisas, p. 55) Saber é, precisamente, poder endereçar extratos textuais uns aos outros: redistribuir os encontros das retas paralelas e, assim, no espaço infinito em que se encontra toda escritura, diluir sentidos antigos e suplementar novos, fazer um texto falar pela boca de um e calar a de outro.
Trata-se de uma compreensão da linguagem enquanto uma espécie de exegese infinita - não uma exegese na lei, mas uma exegese da lei, já que esta está em perpétuo estado de movimento.
O essencial é notar que, nessa exegese fundamentalmente sem lei, não obstante, vivemos e pensamos sob o patrimônio de um originário: somos condenados a ser nutridos desde um solo, a fazer viagens desde algum lugar, a responder em torno de um nome, em sua graça e tributo, e construir, pelos seus poderes, pelos seus sentidos, o monumento do saber.
O reino despótico do original organiza a proliferação de seu comentário. Fixa seus limites, oferece suas possibilidades, anima seu movimento, sempre por meio da promessa de que seu segredo será restituído. Sob o zeloso trabalho do exegeta existe o patrono desse texto primeiro (que, não obstante, ainda resta descobrir. Em busca do segredo perdido: como sempre estivesse a vir-a-ser-revelado).
A lei do original é o fundamento - solo, base (grund, para falar como alemão) de todo esforço hermenêutico: alicerce primeiro e necessário da construção.
A lei do original é a meta - ao mesmo tempo forma transcendente e alvo que procura a flecha - de todo esforço hermenêutico, mesmo que em seu trabalho se esbarre ou encontre sentidos segundos ou terceiros. Porque o original é verdadeira economia do sentido, a lei que dispõe ao redor do patronímico originário os textos subsidiários.
O original controla a proliferação do sentido, recorta o espaço informe do saber dentro de sua medida, concede ao indefinido a concisão de seu nome. Tudo passa a existir em relação: endereçado ou desviado desse ponto originário.
O original cria vizinhanças. Demarca territórios. Além de suas fronteiras é a terra do outro, do desconhecido: do que vem-a-ser conquistado, ou do que demarca a derrocada dessa império erguido ao redor do original.
Os mapas então serão redesenhados, os tesouros e honras pilhados, a história reescrita, os velhos nomes apagados, as províncias do saber distribuídas mais uma vez, e um novo original irá reinar soberano.
domingo, 21 de abril de 2024
ARREBOL QUADRADO #12: DA QUINTA CATEGORIA

O domingo de sol entediava a Azevedo Diniz. Tentava ler a Crítica da Razão Pura, famoso livro de Emanuel Kant, na edição traduzida apressadamente pelo filólogo português Ramos de Mereja e emprestada por um amigo, Kou McLana, que havia recém-chegado de Porto após uns negócios pessoais bem-sucedidos. (McLana era traficante de haxixe marroquino; Porto era um importante entreposto comercial para onde o entorpecente seguia antes de ser distribuído por toda a Europa; graças a McLana, filantrópico estrangeiro em missão de modernizar o Brasil, o produto marroquino passaria a chegar até os burgueses dos trópicos).
Azevedo Diniz tentava compreender a quádrupla divisão dos juízos kantianos, tão arbitrária, pensava, quanto as das enciclopédias chinesas. Era como o caso do pré-socrático Zenão, em que Aquiles corre para sempre atrás da tartaruga, ou ainda, dos números trans-infinitos: entre 0 e 1 existeria o mesmo intervalo entre 0 e 1000. Qualquer reta poderia ser dividida um número infinito de vezes. Por que então as categorias do entendimento se repartiriam assim, tão raquiticamente, em modestas quatro partes: juízos de quantidade, de qualidade, de relação e de modalidade? Diante da natureza infinita do universo, era até mesmo humilhante que nosso entendimento fosse limitado a número tão ínfimo.
Dia e noite passou Azevedo Diniz pensando nisso. Foi enquanto ia para o batizado de um afilhado seu que ocorreu o caso: no canto direito do coche velho que viajava, caído no chão, Azevedo Diniz encontrou a quinta categoria. Abriu a boca, incapaz de acreditar no que via, mas não havia erro: era mesmo a quinta categoria transcendental do entendimento. Tomou-a para si e, desnorteado, por um ímpeto de honestidade irrefletido de que de imediato se arrependeu, gritou para que o cocheiro parasse. O trabalhador freiou os cavalos e voltou-se para o embaraçado Azevedo Diniz, que não sabia o que fazer com a quinta categoria.
- Cavalheiro, perguntou Azevedo Diniz, tentando esconder a ansiedade, isso - e mostrou a quinta categoria - por acaso pertence ao senhor?
O cocheiro, homem simples chamado Ezequiel Palacios, imigrado do Paraguai depois da guerra, assim como Azevedo Diniz torcia para que ocorresse, sequer compreendeu o que tinha diante da vista, e fez pouco caso da quinta categoria.
- Não, senhor, respondeu, e passou a considerar de algum passageiro ter esquecido. Azevedo Diniz arregalou os olhos, aterrorizado com a possibilidade de perder a quinta categoria, e passou a inventar qualquer desculpa.
- Ah, acho que é meu mesmo, fui eu quem deixou cair, que distraído!, disse Azevedo Diniz, sorrindo de nervoso, e meteu a quinta categoria no bolso da casaca. Ezequiel Palacios não deu a mínima para a questão, simplesmente queria completar a viagem e receber o pagamento. Seguiram então adiante.
Enquanto Azevedo Diniz derramava a água na cabeça enorme de seu afilhado, um menino chamado de Marcinho Taquara, não pensava em outra coisa fora nas filosofias que poderiam ser escritas com aquela quinta categoria que sentia pesada no bolso.
Terminada a cerimônia, inventou qualquer desculpa para sair o mais breve possível da festa. Quando chegou em casa, já tinha metade de um ensaio na cabeça. Bastou que colocasse no papel. Quando releu o resultado, viu que não fazia justiça ao que ideava, mas também que não estava mal. Demorou ainda alguns dias a retocar o rascunho, e antes do final do mês conseguiu a publicação em jornal prestigioso, de nome “A Coruja Carioca” graças a uma recente amizade com Coelho Neto, o poeta que todos devem conhecer.
Havia feito tudo mais por prazer intelectual do que por esperanças de recompensa. Sabia que nessa terra a filosofia era conto de fada para uns seis ou sete adultos cultos se baterem por jogos de decifração e raciocínio; sabia também que nessas histórias para meninos grandes, as que mais vendiam eram as que concordavam com os grandes doutores, e não aquelas como as de Azevedo Diniz, que entravam de sola no que pregava o cânone. Além do mais, o que seriam as palavras de Azevedo Diniz contra a do grandioso Emanuel Kant? Menos que nada, sabia muito bem.
Mas que surpresa agradável teve quando um jovem polímata francês de cabelos escuros ondulados e pele pálida como cera de nome Pierre Jean Ettiené, entrou em cena com um artigo elogioso sobre o ensaio de Azevedo Diniz.
Pierre Jean Ettiené era formado em filosofia na prestigiosa escola de Sorbonne, e gostava de enunciar essa efeméride biográfica casualmente, como se não fosse proposital, em jantares e passeios mais diversos. Não era exatamente estúpido, mas não abdicou de suas boas relações para ser admitido como professor de filosofia no liceu de Nice.
Estava preparando sua dissertação sobre a metafísica dos tupinambás brasileiros a partir de documentações de viajantes protestantes. Sua hipótese era que a mentalidade selvagem não seria simplesmente inadequada para o pensamento abstrato, mas que sua mitologia poderia ser entendida como formulação, em nível de intuições empíricas, da realidade transcendental. "Como se houvesse um sistema de tradução entre os mitos dos índios e a mais refinada metafísica de nossa civilização", explicou em artigo de jornal publicado tão logo chegou ao Brasil, em viagem patrocinada pelo Museu Nacional e pela Sorbonne.
Jean Pierre Etienné aprendia o português com certa velocidade, e embora precisasse do auxílio do dicionário português-francês, conseguiu ler e compreender a revolução proposta por Azevedo Diniz. Se naquela aldeia intelectual o ensaio podia passar ileso, sem qualquer repercução fora comentários formais em mesas de jantares, uma mente como aquela de Jean Pierre Etienné, educada em toda a tradição metafísica europeia, jamais poderia deixar passar em branco a descoberta da quinta categoria transcendental do entendimento.
Encontrou rapidamente o endereço de Azevedo Diniz e enviou uma carta solicitando um encontro. Naturalmente, pediu que levasse a quinta categoria. Quando Jean Pierre Etienne viu-a de perto, não conteve as lágrimas. Ofereceu uma gorda quantia, e como Azevedo Diniz estava sem dinheiro, não teve remédio fora pedir um preço ainda mais elevado e assim vender a quinta categoria ao francês.
Pouco depois foi publicado n'"A marmota filosófica" um ensaio de Jean Pierre Etienné especulando sobre o que seria da filosofia depois que a quinta categoria fosse estudada e compreendida em toda sua complexidade. No mês seguinte, o primeiro artigo sobre o assunto apareceu em Paris. A comunidade intelectual do mundo inteiro passou então a conhecer o nome de Jean Pierre Etienné. Quando publicou sua tese, no ano seguinte, o francês já era reconhecido como um dos maiores filósofos do mundo, e a quinta categoria do entendimento já era parte da história universal do conhecimento.
Poucos sabem, no entanto, que essa história começou assim, numa mundana carruagem em que Azevedo Diniz viajava. Façamos justiça a Jean Paul Ettiené, que mencionou, em uma rodapé da página 476 do seu segundo livro, Estruturas Elementares do Entendimento, o nome e o ensaio do brasileiro como um dos precursores no estudo da quinta categoria. Seja lá quais forem os motivos da Providência, mesmo com tal menção, Azevedo Diniz não foi capaz de adquirir qualquer notoriedade internacional. No seu país, alguns amigos lhe parabenizaram com afinco pela menção, mas foi só .
Sua curta carreira de filósofo durou ainda mais alguns ensaiozinhos, escritos em prosa confusa, que alguns leitores especializados elogiaram, mas sempre com alguma ressalva. Ele então se entediou do assunto e voltou a escrever poesia.
quarta-feira, 18 de outubro de 2023
escrevo memórias quando tenho recaídas.
cheirei quetamina.como estará elena? é ainda a mulher que amo, a mulher com quem me imagino vivo, acordando cedo, sentado na mesa, tendo filho
quando comecei o neorromantismo andávamos brigados,
sem saber, ela é mãe do neorromantismo,
desse filho abortado.
a gente conversava sobre família, filhos, ser pais, os gatos e cachorros
elena tinha galinhas no quintal quando criança e um cachorro do vizinho entrou e matou.
tudo começou depois da pandemia.
meu pai havia guardado dinheiro e me convidou para ir a disney
meu feito heróico, eu me rendi e disse sim
perante o juri lisonjeado pelo insulto
aquela viagem foi infernal
todos crimes potenciais em minha imaginação
o carnaval foi onde me perdi, fiquei viciado em cocaína
mas isso foi depois
escrevo cada linha com medo de morrer
não medo de perder minha vida
mas porque morrer é explodir uma bomba atômica
eu sou uma bomba atômica que quando morrer vai matar muita gente
não quero meus resquícios radioativos nojentos tocando gente boa
eu nem quero mais poesia
eu tinha esquecido dele
nina, pensei agora em te ler,
e digo com uma paz,
será que quando eu ler terei?
é tão fácil dar um tiro na cabeça.
lévi-strauss, faça as estruturas do parentescos
analista...
van gogh suicidado pela sociedade eu não quero defender tese
quarta-feira, 26 de julho de 2023
FREYRE SOBRE FRANKLIN GIDDINGS E FRANZ BOAS
Alguns dos seus novos professores também lhe pareceram particularmente atraentes, tanto por seu saber como pelos tipos humanos que representavam. O ruivo Franklin Giddings, "conhecida autoridade mundial em Sociologia", dando aula de fraque preto parece a "própria encarnação da inteligência anglo-saxônica nas suas melhores e mais imperiais virtudes", diz Freyre; já o "moreno alatinado" Franz Boas é um "velhote boêmio" que mais parece "um músico que um antropólogo" ilustre (Freyre, 1975, p.61-2).48 Mas, não obstante essas enriquecedoras distrações, a determinação de Freyre em Nova York parece ter se mantido: priorizar seus estudos.
sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história
1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...
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Desejava escrever longamente sobre a sabedoria dos inimigos, mas esse gênero de assunto exige prolegômenos que por si só merecem um capítulo...
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50. RONDA NOTURNA A parte mais noctâmbula da sociedade saía das óperas e comédias que enchiam os teatros do centro e se dirigia,...