quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

anotações sobre A TRAMA DA NATUREZA (2018), de PEDRO PAULO PIMENTA

4. a infinitude da natureza diante de um entendimento limitado e fraco

5. fisiologia e representação (Diderot);

    fins da razão X fins naturais

6. anatomia kantiana:

    mecanismo X organismo: 

    causas mecânicas X causas finais

8. trama da natureza: arte sem artífice

    acefalia X inteligência 

197. homo artifex: o homem que fabrica arte.

74. o nascimento do HOMO FABER: narcisismo da espécie

14. HUME: quais estruturas/faculdades/órgãos explicam o comportamento?

    CIÊNCIA MORAL

16. filosofia natural e filosofia moral

    imput das sensações (corpo/fisiologia) > fábrica da imaginação (ficção)

    (conteúdo)                                                (forma)

17. filosofia natural: recepção da sensação pelo corpo: puro dado, a sensação tal qual surge na alma sem qualquer percepção antecedente [a filosofia natural estuda a sensibilidade desde o grau zero da experiência, a sensação anterior a qualquer a priori] 

    filosofia moral: exame das sensações secundárias ou refletidas, as PAIXÕES

    "na produção e na conduta das paixões, há um mecanismo regular, suscetível de uma disquisição tão acurada quanto as leis do movimento, da Ótica, da Hidrostática ou de qualquer outra parte da Filosofia Natural"

    o mecanismo regular da paixão: a priori formado na experiência que ordena a sensação 

18. para LOCKE: toda ideia possui um referente material ou empírico

20. origem médica da semiótica: o corpo externo como signo de acontecimentos internos

    SEMIÓTICA de LOCKE: estudo da formação do pensamento
                                                estudo dos signos (externo) do pensamento (interno);
            a semiótica como um estudo experimental dos acontecimentos internos por meio de seus signos

    o conhecimento das ideias das coisas X o conhecimento das coisas mesmas

    para LOCKE: há uma referencialidade contínua entre as ideias e as coisas, e aquela é meio para estas

    "o entendimento está destinado pelo criador a desvendar a ordem das coisas, dispostas para ele, através de signos dessa ordem"

21. em LOCKE, o conhecimento possui essa CAUSA FINAL: desvendar a ordem natural

22. 47. a natureza como DESIGN DIVINO
            "o desígnio aparece como transcendente às coisas, perpassando-as"

23. "um ser natural em particular é a expressão específica dessa ordem que se põe e se renova a cada instante na natureza como totalidade sistemática"

[MEMÓRIA ETERNA DE DEUS QUE ENGENDRA CONTINUAMENTE A NATUREZA]

"protótipo original" das espécies

24. a abertura das ciências empíricas e naturais à especulação

28. CORPO COMO ECONOMIA ANIMAL

36. necessidade, regularidade, finalidade (na economia)

20. Necessidade x Probabilidade

188. TATO: sentido primordial, a priori, na experiência do conhecer

193. observação primeira, instintiva, maquínica e inconsciente, organização pré-lógica da experiência

25.    anatomia como chave para compreensão do divino metafísico

        ORDENAÇÃO TELEOLÓGICA DO ANIMAL DENTRO DO QUADRO NATURAL

196. ordem antropológica e ordem natural (catástrofe do humano e nova ordem natural segundo seu desígnio)

37. a MENTE como um ÓRGÃO que se contrai, distende, como um MÚSCULO

72. as faculdades mentais podem se EXERCITAR e APRIMORAR

56. registro de impressões na memória enquanto ideias
        IDEIAS SÃO REPRESENTAÇÕES DAS IMPRESSÕES DADAS AOS SENTIDOS

35. alma - cérebro - inteligência > adaptação ambiental, desenvolvido pelo EXERCÍCIO e USO

190. na origem da linguagem, ela é puro referente ao mundo empírico e externo, NÃO HÁ ABSTRAÇÃO

                        A ABSTRAÇÃO É POSTERIOR À REPRESENTAÇÃO

169. organismo e princípio de eficiência energética de seu funcionamento

188. 190. VELOCIDADE de apreensão dos dados empíricos (REPRESENTAÇÃO)

41. descontinuidade entre PERCEPÇÃO e IMAGINAÇÃO
    a imaginação é FÁBRICA [ficção] da representação; a percepção é sua MATÉRIA-PRIMA

      a imaginação TRANSFORMA as impressões [COM FINS OPERACIONAIS]

   43. a imaginação e o HÁBITO ECONÔMICO
        economia de energia no processamento do mundo
        o ENTENDIMENTO economiza energia ao invés de renderizar o mundo com toda sua clareza e detalhes infinitos (FUNES ESTÁ SEMPRE CANSADO). 

        o ENTENDIMENTO, ao IMAGINAR - substituir as impressões em suas totalidades por uma representação mais econômica - ordena o mundo a partir de um FIM DADO PELO SUJEITO, a partir da repetição, do hábito, da experiência

59. a RENDERIZAÇÃO da realidade

44. 72. a FANTASIA então possui essa função técnica de economia: a representação perfeita é desnecessária e mesmo prejudicial aos fins da natureza animal (ECONOMIA)

120. a FICÇÃO dos elos entre as partes da natureza como um REMÉDIO contra os excessos e carências (HYBRIS) da natureza

91. PREGUIÇA

90. a natureza como excesso e desmedida (HYBRIS)

91. uma crítica antropológica à imperfeição da economia natural

92. o direito de GUERRA e DOMÍNIO contra a natureza

82. CATÁSTROFES e recriação da natureza X NATUREZA ETERNA (memória perfeita)
        a DESAGREGAÇÃO e REAGREGAÇÃO contínua da natureza: qual a base de sua memória?

140. CONVENIÊNCIA

52. 58. 59. DESIGN x AGREGADO (político e econômico)

o design se impõe como lei desde a eternidade: há uma IDENTIDADE PRIMEIRA entre as partes; o agregado se forma um tanto mais desordenadamente, somente vem a ser a partir da CONVENIÊNCIA das partes em relação [lei divina e eterna X reflexão parlamentar contínua]

83. a ORDEM é uma prorrogativa da matéria (como funciona sua MEMÓRIA?

84. ordem X finalidade: ou como pode haver arte sem um autor? (NATUREZA ATEOLÓGICA)

86. DESÍGNIO (metafísica) X ECONOMIA (história natural) ***

    [a destruição da metafísica e a introdução do conceito de trabalho]

50. a NATUREZA X a IMAGINAÇÃO: ausência de finalidade da primeira, intencionalidade da segunda 

42. as CARÊNCIAS NATURAIS

87. dor e prazer: meios de auto-preservação

95. o homem é DOMINADO pelas PAIXÕES - forças de afecção - prazer e dor [animalidade]

65. a MÔNADA como unidade indivisivel no tempo e no espaço (as substâncias empíricas como mônadas)

105. 111. EFICIÊNCIA e PRODUTIVIDADE

    língua como economia de tempo / força /energia

108. língua e DIVISÃO DO TRABALHO: organizar os processos produtivos

        [superação da natureza pela arte]

111. línguas como variações morfológicas (uso e desuso, referencialidade ao ambiente, etc)

119. A NATUREZA É COMO UM ANIMAL, ORDENADO INCONSCIENTEMENTE.

113. 119. mão invisível e economia natural

    intencionalidade acéfala e a finalidade abstrata - fora de qualquer subjetividade, de qualquer entendimento, e nesse sentido, inconsciente - somente pode ser vista desde a perspectiva do sistema, de sua totalidade, síntese abstrata de suas N partes incontáveis 

109. o ajuste do meio ao fim humano somente pode ser feito na experiência:

    a Necessidade é um esquecimento da experiência de sua fabricação (esquecimento da memória consciente no hábito; economia de processamento) TENDÊNCIA DA EXPERIÊNCIA A UM EQUILÍBRIO EFICIENTE.

117. fisiocracia e intervenção do estado na economia: manter a regularidade dos processos de trabalho e circulação - controlar as carências e excessos da natureza - X o ateísmo econômico de SMITH como elogio da experiência subjetiva (uso e adequação) e crítica da lei universal

156. portrait X tablau historique 

      representação ideal x representação das paixões

158. CONSTÂNCIA dos caracteres morfológicos ao longo do quadro natural (gradação suave e contínua)

162. 170. GERME, ou um PROTÓTIPO ANTERIOR À EXPERIÊNCIA, modelado a partir da experiência (no contato com o MEIO) [GENE]

124. o sistema como consciência do conceito que havia a priori (no princípio da reflexão, um conceito pré-consciente, mas atuante)

125. legislação da razão: filosofia transcendental

        artesanato da razão: antropologia pragmática ("os modos de constituição do sentido na experiência")

128. empirismo pré-conceitual (dado primário da experiência) D'ALAMBERT

        a priori transcendental (condição da primeira experiência) KANT

132. a ordem alfabética das enciclopédias e refiguração do livro como progressão de um todo (razão)

129. DOGMATISMO como esquecimento da experiência fundadora do conceito (perigo do sistema)

131. ENTROPIA e dispersão dos conhecimentos; sistema como ARQUIVAMENTO; (esclarecimento?) a memória epistêmica de uma época como sistema - "como pensava-se", por meio de quais metáforas e conceitos [e categorias e etc] - a enciclopedia como máquina de pensar (meio de refazer o pensamento passado, ARQUIVO, MEMÓRIA) - registro do circuito pensante.

141. sociedade como deformação da disposição natural do ser pelo HÁBITO e EXERCÍCIO

        a sociedade como ordenação do organismo; a sociedade como máquina de organização da vida para determinados fins - HÁBITO e EXERCÍCIO como meio de condicionamento da vida a fins sociais. uma CASA é uma máquina em que se delimita especializações humanas.

    ver a história das abelhas, com estritos planos de carreira: há, na progressão da vida, uma refuncionalização da abelha a partir de sua idade. uma sociedade muito liberal.

142. o artesanato da vida (da carne) - arte de si (métodos para a filosofia, como o feito por descartes, ou "como aprendi a filosofar", ou "exercícios para se tornar um bom filósofo" - reflexões e hábitos para a adequação da disposição orgânica a um fim (por exemplo, a filosofia)

domingo, 8 de dezembro de 2024

FRAGMENTO DO PATRIARCADO

1. o prolegomeno genérico 

A despeito de qualquer palavra ser capa de abarcar o universo inteiro, aqui me refiro a "patriarcado" estritamente para descrever a colonização do Brasil. Logo, o patriarcado que aqui me refiro é um delimitado espacial e temporalmente, uma época qualquer da história da organização familiar. 

Na medida em que o patriarcado descreve um dispositivo genealógico e jurídico que regulam as heranças dos capitais econômicos e políticos desde a diferença entre masculino e feminino.

(O nascimento impõe ao sujeito uma primeira identidade, que no curso da vida, irá desaparecer, embora sobreviva espiritualmente, como memória). À despeito de não se encontrar em qualquer legislação impressa, o parentesco não é uma lei derivativa das disposições da natureza, mas sim uma imposição jurídica que prescinde da letra para que esteja registrada: é uma lei inscrita no arquivo orgânico e interno, aquela memória que às vezes alguma coisa se transmite, mas quase tudo se perde, na reprodução sexual. 


2. viva o povo brasileiro

As relações de parentesco existem em relação com a de trabalho e sua reprodução. Somente pela reprodução sexual que pode a economia reproduzir a sua mão de obra (a despeito de todas aventuras automotivas). Foi somente por meio do trabalho que isso aqui surgiu e veio a ser o que hoje chamamos vagamente de Brasil, país extremamente populoso onde vivem milhares de famílias que trabalham.


3. O trabalhismo que tudo faz

é o trabalho tudo que produz. o parentesco, na perspectiva da organização do trabalho, deve ser visto como a forma de organizar a produção da mão de obra que fará tal trabalho. deve ser menos pensada desde a sua justiça ou produtividade (digamos: a melhor ou mais justa família deve ser aquela que mais dá filhos, ou a que dá menos filhos, ou que dá filhos educados, ou que dá filhos miseráveis, etc), mas sim desde a perspectiva holística que a coloca como instância para o movimento de um todo. a organização do sexo, afinal, é o que produz as vidas que os capitalistas empregam para seus meios produtivos. você acha mesmo que não existirá transformações na organização familiar se os meio produtivos claramente se transformam? 


4. genealogia política da vida

São as famílias, ainda hoje, que asseguram a transmissão de heranças e direitos de nascença. a família te impõe seu nascimento. por ela, registram o sujeito em determinadas posições do regime produtivo, como se assim imprimisse em seu corpo verdadeiros a prioris que haverão de orientar tal experiência. A preparação pro mercado de trabalho começa já na tenra infância, tal qual a do escravo. para pensar em parentesco, só me parece possível faze-lo não somente como parte de uma economia sentimental e psíquica, representada pelos sofrimentos e desejos pessoais, mas uma economia material e política, que deve explicar como os nossos relacionamentos são também modos de organizar o trabalho total e abstrato da sociedade.

veja a mão de obra escrava, que plantava e cortava a matéria prima dos engenhos, a cana de açúcar. foi para isso que se populou o brasil: para trabalharem na agricultura. para isso foi necessário um meio produtivo muito específico: os úteros africanos, capazes de alimentar as senzalas em que surgiu o brasil.


5. parentesco na senzala

a colonização do brasil foi feita pelas riquezas obtidas sobretudo pela agricultura, e claro, o trabalho de muitos escravos. a história do país é atravessada pelas famílias de grandes fazendeiros, mas perceba que a casa-grande sempre teve uma senzala bem pertinho, para ter capital humano à disposição, pra cuidar da casa, da terra e da vida.

a senzala também precisará se organizar desde necessidades de parentesco. não, contudo, segundo a opressão da natureza eterna, que impõe ao ser um sentido univoco, mas sim a partir das experiências históricas - isso é, feita em cada psicologia individual-, a partir da variedade de meios com que cada um em cada tempo e lugar pode dar matéria ao seu conhecimento ( "intuições empíricas", assim Kant se refere ao que seria a origem de ato que dá origem à representação deum objeto físico ). pode-se facilmente especular sobre as raízes africanas que presidia a jurisdição familiar das senzalas, mas o fato é que agora elas deveriam se conformar com as imposições materiais de estar no Brasil. Não em casa, no seio de sua família, onde todos seguem uma mesma lei, mas em uma senzala, lugar em que se reuniu gente sem qualquer relação de filiação sobre o mesmo teto. O tráfico de escravos, continuamente inserindo novos estrangeiros na senzala, certamente haveria de favorecer uma organização familiar que fosse adequada para recebê-los. Quero dizer que, na história de cada senzala deve-se imaginar um acúmulo da experiência de receber o estrangeiro, ao ponto da comunidade desenvolver códigos para regular essa recepção. (o que são os códigos dos computadores se não os hábitos que lhes permitem pensar?)

A senzala não é somente uma infraestrutura econômica (ela não é somente parte do meio produtivo). A organização produtiva dos escravos deve ser suplementada por aquela organização jurídica e genealógica do parentesco, e tantas ciências mais, desde as quais as senzalas viviam entre si e entre relações com a casa-grande, onde escravas criavam os novos senhores.

alguns conceitos impõe a divisão sexual da linguagem, na medida de que assim, separados entre macho e fêmea, os conceitos historicamente existiram. sabemos que os significados e valores dados a esses viveres de macho e fêmea variavam amplamente. a organização binária do saber cultural se relaciona com as posições assumidas desde um sistema de parentesco que diferencia quais os fins inerentes a uma pessoa: ser bacharel, ser esposa, ser cortador de cana, ser criada, e a lista poderia prosseguir, traçando infinitas coordenadas em que sexo, raça e gênero se reencontram descontínuamente 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

A FANTASIA DO DIREITO, O PESADELO DA HISTÓRIA

Desde o 18 de Brumário de Karl Marx, aprendemos que as formas jurídicas, na modernidade, possui essa estranha representação farsesca. Primeiro, a inesperada ascensão de Napoleão. Depois do golpe que derrubou a república e proclamou a monarquia, a burguesia, pela mudança na lei, dissimulava uma revolução. Se os eventos políticos se anunciam e celebram por meio de todas os meios de espetáculo e propaganda, os meios produtivos, diante da farsesca revolução, no entanto, nada ou quase nada se transformam.

Assim como a experiência do 18 de Brumário, a Proclamação de República Brasileira colocou em curso uma tecnologia espetacular semelhante. A verdade é que o progresso republicano só se fez à custa da manutenção daquilo que seria a verdadeira Lei brasileira: a do patriarcado ruralista. Apesar das querelas entre os modelos de parlamento, e todos elogios que um Joaquim Nabuco rasgou ao sistema inglês, em que o Monarca mantém funções decorativas e simbólicas, pode-se dizer que, no Brasil, a Monarquia também era essa espécie de teatro de fantoches em que se dissimulava o governo daqueles poderosos senhores de terra e de gente. A passagem para a república, proclamada na decorrência da independência, foi meio desse patriarcado se vingar do golpe recebido: a abolição da escravatura.

A abolição, que deveria ser um evento verdadeiramente revolucionário, capaz de transformar profundamente a estrutura produtiva brasileira, no entanto, se demonstrou mais uma farsa jurídica: a manutenção dos laços de dependência análogos ao da escravidão, mesmo depois de estabelecido o trabalho livre, comprova como, por algum motivo, pela influência de alguma força que lhe é contrária, as revoluções políticas parecem sempre ser resfriadas, de modo que todo progresso parece retroceder à ordem.

Se uma república ideal é capaz de orientar a política daquela república que existe em nossa realidade, ela também parece ter esse estranho poder de dissimulação capaz de refrear mesmo as revoluções mais poderosas, como aquela feita pelo proletariado, na Rússia, e de onde nasceria a União Soviética. Não precisamos lembrar como a história desse país contrariou nossas fantasias políticas, ao ponto de hoje estarmos desesperançosos diante do socialismo. O fato é que a despeito da revolução socialista ter se apoderado do aparelho do estado, com seu exército, escolas, instituições, etc, e todas as pretéritas relações de propriedade transformadas, em benefício da posse coletiva da terra e administração do estado, a organização produtiva capitalista ainda oferece uma resistência incrível, como se recusasse a ser transformada.

Não é de se espantar que, ainda para a União Soviética e China se adequam perfeitamente às conceitualidades empregadas por Marx pada compreender a economia burguesa. 

Apesar de toda a tecnologia legal e política implantada desde a revolução, a URSS permanecia, no íntimo, capitalista. Não queremos dizer que essa história burocrática e legal não guarde lições e saberes para novas experiências revolucionárias. O que desejo explicitar foi esse persistente caráter fantasioso, que nos últimos séculos, passou a revestir o Direito.

O estado do Direito enquanto Fantasia Utópica durante a modernidade deve ser inicialmente imaginado como mera característica de uma época: nem prova de sua decadência, nem demonstração de sua nobreza e vitalidade. O idealismo desse Direito republicano ou liberal revela sobre o descompasso entre a infraestrutura e superestrutura nas sociedades industriais e burguesas. Ou ainda, como os supostos progressos da civilização e da cultura, conquistados no nivel da crítica e da discussão pública, e mesmo os poderes conquistados pela luta e conquista dos meios produtivos, demonstram simplesmente insuficientes para descontinuar a tecnologia produtiva capitalista.

A pergunta, um tanto constrangedora que me ocorre, ao mirar o exemplo de mega-nações socialistas, como a URSS foi no passado, e hoje é a China, se somente esse nível se produtividade atingido pelo capitalismo pode sustentar, no contexto de uma guerra geológica, a continuidade de uma revolução do proletariado. E que por mais que se transformem os direitos produtivos, a economia politica capitalista seria necessária para se obter os mais elevados índices de produtividade

Essa dúvida diante da possibilidade de uma revolução súbita impõe ao estado, a despeito de qualquer transformação institucional ou legal, o dever de acelerar sua produtividade e acumular riquezas, já que só assim, com abundantes recursos, que a revolução poderia custear os enormes gastos tecnológicos e profissionais necessários para se proteger das diversas intervenções e táticas das nações capitalistas inimigas. 

O desenvolvimentismo seria assim uma espécie de necessidade, já que somente por meio de incrementos sempre crescentes na produtividade que uma ditadura do proletariado poderia se dar ao luxo de subexistir em um mundo ainda dominado por capitalistas.

Se é esse meio produtivo capitalista que nos dirige ao fim dos tempos, e se somos incapazes de superá-lo, é em parte porque ele é necessário para se viver nesse mundo de escassez e guerra, produzido pelo capital. Espero, contudo, estar equivocado, e que possamos todos despertar desse pesadelo que é a história.

ARREBOL QUADRADO 101. DUAS MULHERES FALANDO DE UMA IRMÃ E DE UM NAMORADO

O dia havia esgotado a constituição física de Nina Rodrigues. Apagou as duas lamparinas que haviam acesas sobre a escrivaninha, deitou sobre o chão empoeirado de seu laboratório, fechou os olhos e alongou a base da coluna. Sentia muita dor nessa região, depois das muitas horas passadas sobre os livros, jornais e cartas. Sem falar nas posições pouco ergonômicas que mantinha no curso de seus experimentos científicos. O resultado não podia ser outro fora aquela série lesão por esforço repetitivo. A causa era muito simples, pensava Nina Rodrigues, e não varia de ser outra coisa fora um excesso de força feita sobre os músculos da região. O peso de sua enorme coluna vertebral, além de toda a gordura acumulada nos fartos seios de fêmea, que despencavam sobre seu abdômen e aumentavam consideravelmente a força feita contra a sua musculatura. 

Enquanto Nina Rodrigues pensava em possíveis exercícios destinados ao fortalecimento da constituição feminina, a porta do laboratório se abriu. Era a criada, Maurília, carregando uma vela e rompendo a escuridão. 

- Oh, minha senhora, já estava indo realizar minhas higienes para ir dormir, conforme a senhora me ensinou ser o correto para a minha saúde. Estava lavando meu rosto com aquelas poções, e tomando os remédios que me instruiu. Ainda não senti nenhuma melhora. Quer dizer, acho que tenho acordada com mais disposição, mas mesmo assim. É que minha cabeça anda lá na minha terra. Recebi notícias de que minha mãe adoeceu e que pode ir dessa para melhor.

- Que houve com ela, Maurília? Adoeceu simplesmente? Ninguém adoece assim, simplesmente, sem causa alguma. Sua mãe não era velha, era?

- Tem menos de trinta anos, senhora Nina. 

- E sua mãe é bem cuidada?

- Até que é, o senhor gosta muito dela por conta das suas artes de cozinha. A sinhá também gosta de mantê-la por perto, para que ouça seus exercícios ao piano. Como vocês sinhás gostam de tocar ao piano. Onde está seu piano, senhora Nina?

- Não tenho piano.

- Não aprendeu a tocar piano quando menina?

- Aprendi, mas nunca fui muito boa. Minha irmã era quem tocava o piano. Nasci da mesma célula que Lira, mas somos completamente oposta. Ela somente se dedicava às coisas que lhe eram espontâneas. Tocava o piano porque nasceu sabendo tocar piano. Mamãe lhe dizia para fazer isso, e ela fazia, porque era tudo natural para Lira. Eu, no entanto, contrariava todos os desejos de minha família, porque tudo que desejavam era que eu fosse outra pessoa que nem eu. Sou a ovelha negra, Maurília. Não toco o piano. 

- Mas não gosta das canções? Elas são tão bonitas. Outro dia aquele violeiro, que anda para cima e para baixo cantando sobre a vida alheia, e a quem admiram o talento de seu espírito afiado e veloz, que inventa os ditos no mesmo momento que canta. Tudo de improviso, senhora Nina. 

- E a voz, como é?

- É divina, minha senhora!

- E de corpo, como é?

- Ele é assim, assim. Não é muito ajeitado, mas é porque é pobre. Se tivesse dinheiro iria consertar os dentes. 

- Qual o nome dele? 

- Damião Experiente. Porque dizem que trabalhava antes como faroleiro, e que era o mais velho de toda a região portuária. No entanto, aos trinta e poucos deu-se com a vida isolada em alto mar. Desentendimento com um colega de trabalho também. Saiu do farol, entregou o cargo público e passou a viver das troças e pilhérias que faz com a viola. 

- E como sabe um faroleiro cantar e tocar viola assim?

- O tempo que passou no farol, que segundo me contou, era infinito, somente passava com a companhia de seu violão.

- Ele te contou? Então já estão conversando.

- Assim, assim. 

- Me conte, Maurília. O que planeja fazer com esse homem?

Ela riu-se toda e respondeu:

- Nada, minha senhora. 

- Nadinha?

E Nina então caiu na gargalhada. Maurília, que na verdade pensava esse tempo todo na mãe, também riu, mas talvez dissimulasse. Seguiu um silêncio desconfortável, em que Nina Rodrigues sentiu as costas doerem e Maurília pensou na morte de sua mãe. 

A campainha tocou. 

- Eu atendo!, disse Maurília, e imediatamente saiu da sala. 

Nina Rodrigues foi até a mesa, arrumar os livros e os papéis para que pudesse receber a inesperada visita. Enquanto marcava os livros e os devolvia para a estante, passou os olhos no relógio e verificou que já eram mais de duas da manhã. Quem seria a essa hora?, pensou, enquanto devolvia as penas aos seus tinteiros. Ouviu o barulho de passos e correu para o espelho, imaginando que seu cabelo estaria desarrumado. Maurília disse para ela que era o senhor Azevedo Diniz com uma pequena comitiva composta por um jovem seminarista, uma senhorita com ares da vida, e um estrangeiro ilustre mas que ela desconhecia. Nina Rodrigues ajeitou suas vestes e mandou que deixasse eles entrarem.


domingo, 1 de dezembro de 2024

esboço de tese

1. história natural 

filogenia 

2. economia política

física orgânica

meios produtivos animais

zoologia da moral 

3. sexualidade 

guerra dos sexos

competição por fêmeas

civilização como tecnologia de controle

4. psicologia 

progresso, esclarecimento e repressão do id

psicanálise e filogenia: firenczi, freud e jung

5. filosofia transcendental 

universal e local

6. história do brasil 

7. história de gilberto freyre

FÁBULA DO LIVRO

“A ideia do livro é a ideia de uma totalidade, finita ou infinita, do significante; essa totalidade do significante somente pode ser o que ela é, uma totalidade, se uma totalidade constituída do significante preexistir a ela, vigiando sua inscrição e seus signos, independentemente dela na sua idealidade”. 

DERRIDA, J. Gramatologia, pp. 21 – 22: 


Há uma velha história que eloquentemente coloca a questão do arquivo enquanto uma forma decrépita da origem divina: Um menino, já cheio de sono, decide fechar seu livro e ir dormir. Como faz todas às vezes, marca cuidadosamente a página que parou, apaga a vela e deita sob os lençóis. Naqueles instantes em que o intelecto se agita antes de ceder ao sonho, o menino entrou em devaneios. No torpor das altas horas, pareceu razoável que a realidade fosse como os livros que lia antes de dormir. Depois dessa conclusão, que pareceu obedecer a todos os critérios da lógica, principiou então a filosofar: “se o mundo é um livro, então é Deus quem coloca o marcador para que na noite seguinte a história possa continuar daquele exato ponto em que se parou”.

SUPER-SEMIOSE

     Algumas décadas atrás, em uma época que talvez ainda seja a nossa, Jean Baudrillard expressava aquele mal estar civilizatório diante dos rumos da modernização. Especialmente, atormentava ao filósofo francês aquilo que poderíamos descrever como os descaminhos do espírito e da civilização por meio da industrialização da cultura, cujas máquinas cada vez mais avançadas fabricavam relatos e representações cada vez mais velozmente.

   A elevada produção de informações, para Baudrillard, havia produzido essa espécie de patologia super-semiose, que agora as sociedades industrias padeciam, em que a abundância e contrariedade de sentidos não parecia simplesmente levar os fundamentos do espírito iluminista à bancarrota intelectual. A aparição da massa, enquanto objeto e positividade de uma ciência, para Baudrillard era expressão de como a humanidade, consumidora absoluta, renunciava abertamente a conceitos como sujeitos e sentidos, que não pareciam guardar nenhum sentido com a sua experiência dos espetáculos midiáticos:

 

Os media carregam consigo o sentido e o contra-sentido, manipulam em todos os sentidos ao mesmo tempo, nada pode controlar este processo, veiculam a simulação interna ao sistema e a simulação destruidora do sistema [...] Não há alternativa, não há resolução lógica. Apenas uma exacerbação lógica e uma resolução catastrófica.[1]

 Se as massas são aquelas que consomem acriticamente, esse superconsumo no entanto somente se faz mediante a destruição do sentido: a “recusa de sentido” e a “recusa da palavra”, que caracterizariam as passividade das massas, na verdade, seriam então respostas ativas, uma produção daquela dimensão que parece a mais improdutiva das sociedades modernas.



[1] BAUDRILLARD, p. 110.

sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...