segunda-feira, 22 de maio de 2023

lixo biográfico

 A dissertação que entreguei para obter o título de mestre - cujo tema, curiosamente, hoje percebo com muito maior clareza do que na época - foi dedicada à crítica literária de Jorge Luis Borges, à montagem de uma espécie de “micro-história da literatura” a partir dela - digamos, a história da literatura segundo Borges - e também, - esta é minha parte favorita - sobre os desdobramentos de sua atividade de crítico dentro de sua obra mais formalmente categorizada como ficção.

Quando me candidatei ao doutorado, aproveitei o conhecimento e bibliografia acumulada durante a experiência do mestrado e me dediquei a um projeto sobre um escritor que, por livre e espontânea vontade, naquela época estava lendo com afinco, o também argentino César Aira. De início, a simples troca de autor - de Borges para Aira - pareceu me satisfazer. Veja bem. Depois de quatro anos lendo e relendo Borges, me parecia necessário respirar novos ares. Era como uma relação amorosa desgastada: precisávamos dar um tempo, mesmo que soubéssemos que fosse do tipo de divórcio em que não se desfazem realmente os laços, e que o reencontro fosse questão de tempo. 


***


Preciso contar agora porque também terminei com Aira. 

A verdade é que, mesmo que tivesse cortado as relações com Borges e agora estivesse com um novo objeto de estudos, ocorreu aquilo que muitas vezes ocorre quando vamos muito rapidamente de um namoro para outro. Quando dei por mim, estava projetando as questões que tinha com Borges em Aira, ou seja, simplesmente dava continuidade às minhas pesquisas. Eestava traçando linhagens, observando continuidades e rupturas, continuava preso - senão ao mesmo objeto de estudo - pelo menos preso ao mesmo mundo que lhes circunscrevia… Percebi, portanto, que simplesmente não queria mais estudar a literatura argentina… 

Sempre houve em mim certa aversão ao especialismo acadêmico, e isto também pesou em minha escolha de abandonar a literatura argentina, muito embora saiba que, para o melhor futuro profissional possível, é recomendado ao pesquisador que vá cada vez mais fundo, se não em um mesmo objeto, pelo menos em um único campo de estudo. O ecletismo, no entanto, - creio que isto de imediato me atraiu em Gilberto - sempre me pareceu intelectualmente mais interessante (embora saiba que ser “eclético” nos tempos aristocráticos e ensaísticos de Gilberto, antes da profissionalização do historiador, era uma outra coisa…).

Houve também outro agravante, que menciono a pretexto de antecipar um ponto que planejo expandir nas demais seções deste projeto, especialmente nos itens “delimitação do objeto” e “teoria”, e que refere à importância que dou aos aspectos retóricos, poéticos e/ou literários da ciência histórica; assunto que gostaria de tratar a partir de meu objeto, isto é, Gilberto Freyre, porque também lhe foi importante, mas, ao mesmo tempo, por gosto pessoal, pelo desejo desenvolver tais reflexões teóricas na prática, ou seja, em minha própria historiografia.

Pois o verdadeiro motivo que me fez abandonar de vez o estudo literário foi o cultivo da escrita, que se for pensar em marcos ou origens, diria que remonta aos meus quinze anos, quando ouvia bandas de rock brasileiras - Ludovic, Dance of Days… - e as letras não só me comoviam, como me estimularam a me expressar em versos chorosos, dotados da sinceridade visceral e banal que apenas poetas adolescente ousam ou conseguem escrever. A literatura, contudo, para mim se limitava aos livros de Harry Potter que li quando garoto, os quadrinhos da Turma da Mônica, os gibis de heróis… O mundo da alta cultura conheci propriamente na universidade, e também não lembro porque, mas me atraíram certos cursos que alguns professores - em uma graduação de História!, isso na época me era estranho - ofereciam sobre literatura, e foi por meio destas disciplinas que passei a ler propriamente. 

Novamente, não sei o que me atraiu na literatura, nem o que me fez persistir ao ponto de transformá-la em objeto de estudo. Foi motivado de alguns amigos que passavam da condição de leitor para de escritor que resolvi começar a escrever. Meus amigos todos pararam, mas eu - por enquanto - continuo, mesmo sem obter resultados significativos. Quando terminei a dissertação, já tinha uns anos de estudo e experiência; me pareceu então prudente seguir o exemplo de Ricardo Piglia, que diz ter estudado história, e não letras, para que isso não atrapalhasse em sua formação de escritor. A afirmação era arbitrária, breve, sem qualquer justificativa, mas como considero Piglia um bom escritor, decidi seguir o exemplo, e se fez necessário abandonar o estudo da literatura para que então pudesse escrevê-la.


O QUE É A BIBLIOGRAFIA: atomismo do espírito; ou porque acredito em mitos

Aproxima-se, diante do púlpito, uma mulher de nome indefinido, mas que declara ao microfone seu "ceticismo, e também, inevitável pelas constantes leituras que fiz de Machado durante um mestrado, não soar irônica em meu pessimismo".

Declara também que somente encontrou em tal ocasião "brecha para se expressar, mesmo que não saiba o motivo da expressão", e pediu ao público do congresso que desculpasse qualquer "salto argumentativo [...] porque estava bêbada [...] depois de dois copos de uísque" e que também havia o "rivotril" que disse beber como "passarinho que avoa até bebedouro posto em janela de apartamento miserável".

O que disse em sequência foi o seguinte:

Este enorme edifício que os senhores acadêmicos planejam, este largo empreendimento ficcional que fazem aqui, reunidos de modo tão teatral quanto deputados em câmeras de deputadas... Não, não falo contra os senhores, nem contra seus ofícios, nem mesmo contra a fictícia torre... Ela, afinal, que orienta não apenas os escritos que escrevem aqueles que em sua construção desejam se iniciar..."

(Neste ponto apontou para mim, que defendia minha tese de doutorado)

"Este pobre rapaz, coitado, não falo assim por pena, somente para indicar que a operação que realizou durante alguns anos, e que lhe deve ter ocupado os nervos e as paixões, não importa para nada, não adiciona nenhum tijolo na imaginária torre que constroem por meio do conhecimento..."

(Me olhou e deu um sorrisinho, que me pareceu simpático, de empatia, mas que talvez também fosse de pena).

"O que o rapaz faz, ao escrever e defender uma tese, ao ser cumprimentado pelo senhor..."

(E indicou o Oswaldo Candido, professor emérito do Departamento de História).

"Quando o senhor cumprimenta o rapaz pelo acréscimo que agora se faz à bibliografia acerca de seu tema de pesquisa... Sinto prazer sádico em dizer, mas também tristeza...)

(Voltou a olhar para mim, e parecia genuinamente triste).

"Isto que se refere como contribuição à grande biblioteca do saber é evidentemente uma contribuição fictícia, mas reconheço, eu não sou estúpida, que é sim contribuição para operações maiores!, que este tijolinho que o rapaz acrescenta no enorme e inexistente edifício, se este tijolinho não representa nada, importa por um motivo diverso do imaginado por vocês, bando de positivistas!" (Fez um gesto amplo que abrangeu o auditório e a banca, e a partir deste momento passou a falar diretamente para aqueles que nela estavam sentados).

"A tese deste pobre diabo, o tijolinho que finge adicionar na torre imaginária que o senhor chamou de bibliografia, vou revelar sua qualidade verdadeira: é somente o produto, o objeto magnético e de capacidades mágicas que nos distrai daquilo que faz a máquina do saber girar... A cadeia de projetos, de bancas, de artigos, de bibliografias... as universidades, as editoras… O motivo do movimento jamais importa: é sempre falso, é sempre ilusório, é sempre fictício. Vivemos na mitologia ou no cruzamento de várias: se o mito é falso, então a verdade, o conhecimento, o saber - o grandioso mito que atravessa séculos sob a forma das mais variadas histórias - se o mito é falso, portanto, a verdade é falsa, e estaríamos em uma contradição que nem ao menos seria necessário o serviço de um lógico para solucionar. A verdade é que o mito é real: que o ilusório é real, que o fictício é real, que o falso é real, e que não importa a verdade do movimento, basta o estar-em-movimento".

educação

Fiz movimentos enérgicos, de quem combatia em uma guerra já perdida… Mas eu não passava de uma mosquinha presa em uma teia grudenta e forte, e quando dava por mim estava ainda mais enredado em suas malhas. Era questão de tempo para ser devorado pela aranha. Preso na teia, fraco, famélico, cansado, exausto, encontrei próximo de meu rosto um objeto gelatinoso, que demorei reconhecer por conta de meu cansaço, mas compreendi ser o ovo de algum inseto... Qual? Não sei, naquele momento sequer conseguia pensar, mas agora, recuperado o vigor e a capacidade de raciocínio, concluir ser uma ova da própria aranha... Não foi só pela fome que meu paladar aceitou devorar um quitute tão asquero, mas pelo ódio de vingança, que fez eu mastigar aquela bola semitransparente - por dentro conseguia ver o feto ainda em gestação - até sentir que tudo estava dentro de meu estômago. Quando terminei a refeição, não sei o que me ocorreu, mas subitamente me metamorfoseei em outro gênero de inseto, um ser estranho que, contudo, teve forças para romper a teia, e ainda cambaleando, cansado pelo esforço, fui procurar o caminho de casa…

POR UMA HISTORIOGRAFIA DE VANGUARDA

O argentino Ricardo Piglia, em ensaio muito breve e conciso - talvez por algum impulso brechtiano de dissolver a magia que anima as histórias e que ilude inúmeros leitores - revelou como o conto moderno opera de maneira bem simples. 

Que o leitor - e muitas vezes o próprio escritor - não percebessem tão simplório mecanismo, talvez signifique que mesmo o truque mais gasto e ordinário, se for bem executado, ainda é capaz de produzir grandes feitos. 

No que consiste o truque do conto moderno? Piglia explica que sua trama opera a partir da ilusão - um legítimo truque empregado para distrair o leitor - e ao invés de narrar-se a história que acompanhamos, na verdade, o texto oculta uma narração dupla: o segredo, contudo, é que a segunda destas histórias ocorre de maneira discreta, sem que o leitor perceba ou dê atenção suficiente; se a primeira história é evidente e salta a seus olhos, a segunda é narrada, mas narrada por meio cifras: espécie de narração criptográfica. O escritor, portanto, faz um belo truque de prestidigitação, como os mágicos; ocupam a atenção do espectador com qualquer bobagem, enquanto, fora dos olhares, por dentro de sua manga, prepara o movimento que, revelado no final, irá deixar todos de queixo caídos, e arrancará os aguardados aplausos da multidão.

A surpresa manifestada pela aparição da segunda narrativa aqui contudo não precisa surgir no final; afinal, não estamos em um conto; este, digo ao improvável leitor desavisado, que por algum motivo tem diante dos olhos estas palavras, é somente um projeto de pesquisa, feito para circular e ser lido entre não mais que quatro ou cinco pessoas.

Trata-se de um gênero textual, digamos, burocrático, em que explico, primeiro, os antecedentes, ou ainda, como cheguei ao meu objeto de pesquisa; e como também este é um gênero judicativo, que precisa receber o crivo de algumas autoridades acadêmicas, o que estou a fazer - mesmo quando não pareça - é a explicação, defesa e exposição (parcial) de um trabalho de pesquisa já em andamento, e que a partir da orientação dos pares serão impostos alguns limites e também oferecidas novas possibilidades. Pobre leitor!, que desorientado chegaste até aqui, irei ainda lhe explicar que, por convenções do gênero, estou isento da necessidade de causar surpresas (embora certo aplauso, claro, seja recomendado).

O que ocorre, contudo, é minimamente confuso, porque é com consciência que continuamente imponho marcas de gêneros ficcionais neste texto que deveria ser não-ficcional, coisa que, para a maioria dos pesquisadores, parecerá simplesmente encheção de linguiça, pois a linguagem clara e objetiva é parte do discurso historiográfico (quer dizer, tornou-se parte, a partir de dado momento, a partir de certa disseminação do que é o discurso historiográfico), e se no discurso historiográfico - cujo dever é narrar fidedignamente o ocorrido - tudo que pareça demasiado literário no historiográfico, infelizmente, por mais avançadas que estejam as discussões sobre as relações entre a história e a ficção, e que se escrevam longas teses e artigos sobre o assunto, a verdade é que o literário, quando surge dentro do historiográfico, é ainda assim lido como ornamento, excedente desnecessário, parafernalha que atrapalha a manifestação de alguma coisa que costumam ter dificuldade de definir, mas que pode ser o lógos, o discurso verdadeiro, mas como a maioria dos historiadores estão cultivados em certo positivismo tão difuso que já nem mais percebem atravessá-los, o literário vira empecilho para a objetividade que deveria caracterizar o discurso histórico, o que ainda irá se justificar pela necessidade das pesquisas terem uso dentro da comunidade acadêmica, porque o conhecimento deve ser capaz de circular dentro deste mercado do intelecto em que uma tese irá servir de tijolo para uma próxima tese!, e que assim será construída enfim esta torre de babel em que todas línguas estarão reunidas - a torre será provavelmente construída na dependência de alguma universidade norte-americana por meio dos papers de estudiosos do mundo inteiro, mas que contudo residem fora de seus países e escrevem em inglês (os tijolos propriamente ditos serão colocados por algum pedreiro imigrante ou qualquer trabalhador que aceite um salário miserável -...

Não me espanta que não compreendam o poder epistemológico e retórico de não somente bem-escrever - escrever bem é entregar um livro que fique entre os trinta mais vendidos de alguma Casa-grande das Letras ou qualquer editora que venda porcarias -; não me refiro ainda ao de “bem-conduzir” ao leitor pelas duras páginas científicas, e assim concorrer com os jornalistas e garantir ao historiador a participação no mercado editorial, ou ainda, nas novas mídias que a internet torna cada vez mais importante: youtube, podcasts, tik-tok, etc… Me refiro a uma coisa mais séria, que embora possa ser mais facilmente ignorada por alguém que faz pesquisas estatísticas, por biólogos que observam a divisão celular e simplesmente fazem seu registro, por estudiosos da teoria do caos ou do comportamento estranho que possuem as partículas minúsculas que hoje acreditamos explicar nossas vidas: átomos, elétrons, neurônios, serotonina, e os tantos outros que não sabemos sequer nomear…

Se tais ofícios possuem tão mais facilidade para compreender a importância daquilo que é referido corriqueiramente como “forma literária”, um historiador, cujo dever é relatar aquilo que se passou no passado - realizar, portanto, uma historiografia, uma escrita da história… - como afinal podemos não apenas ignorar os impactos de tudo que os estudos literários e o mais importante: a literatura, produziu ao longo dos últimos séculos? E não, não me refiro somente a tomá-las como objetos de estudo.

Se no século XIX e XX os escritores tiveram que defender a execução de uma literatura de vanguarda, penso que o mesmo deveria ser feito pelos historiadores: a defesa de uma historiografia de vanguarda. Que não abandone o rigor, que não abandone tudo aquilo que pretende fazer de nosso ofício um saber capaz de participar de uma comunidade acadêmica, e enfim, as características que - se não autorizam chamá-la de científica -, ainda nos fazem pensar em termos de uma ciência histórica… Mas não seria a literatura também um tipo específico de ciência? Não são os poetas afinal detentores de um gênero de saber? A história, cuja imprecisão de seu discurso fez muitas vezes que fosse igualada à retórica, foi poucos séculos colocada em um espaço próprio: mas lembremos não somente de nossas origens, e se o fim da retórica significou o nascimento da literatura, e que dela agora somos irmãos, que isto não seja lido pelo viés negativo.

Que compreendemos os poderes e os saberes do literário; melhor não negar esta proximidade, e querer correr de volta para os braços da ciência natural. Proponho um outro caminho, um tanto estranho, talvez, mas que a mim faz bastante sentido: que compreendemos a ficção não como falsidade ou ornamento; que compreendemos como a ficção também participa de alguma forma da verdade; e como a historiografia também partilha destes ainda estranhos poderes que pressentimos, mas que desconhecemos, e que chamamos por muitos nomes: poesia, literatura, ficção, retórica… e até mesmo, pelos mais astutos inimigos, de mentira


sábado, 20 de maio de 2023

SOBRE MINHA DISSERTAÇÃO SOBRE BORGES: o que vale a pena

A dissertação que entreguei para obter o título de mestre - hoje percebo melhor do que na época o seu tema - foi dedicada à análise da crítica literária de Jorge Luis Borges, à montagem de uma espécie de “micro-história da literatura” a partir dela - digamos, a história da literatura segundo Borges - e também, - esta é minha parte favorita - sobre os desdobramentos de sua atividade de crítico dentro de sua obra mais formalmente categorizada como ficção.

Em minha opinião, é um trabalho em que não fui capaz de atingir uma qualidade razoável de conjunto, mas certo otimismo faz procurar virtudes mesmo no fracasso: afinal, há pelo menos o esboço de boas ideias, que algum pesquisador melhor preparado poderia delas se servir e fazer coisa bem melhor. O que me parece mais importante em minha dissertação, contudo, foi ter funcionado como espécie de iniciação, estes rituais violentos em que se arrancam pedaços de animais e mutilam pênis de crianças; no caso, a mutilação foram os dois anos de pesquisa, a escrita de um trabalho de cento e poucas páginas, e o processo de atravessar a burocracia de bancas e orientações. A marca que me deixou é contudo indelével, e para ser percebida, assim como no caso da circuncisão, muitas vezes exige o convívio íntimo.

Para falar em termos francos, minha dissertação é meio merda. Há, contudo, dois capítulos que me agradam, e caso seja do interesse do leitor, posso até mesmo enviá-los.

Um deles foi escrito a partir da relação de Borges com o gênero policial, gênero que, além de ter escrito contos, também resenhou assiduamente, ao ponto de ter desenvolvido uma verdadeira poética do policial, cujo mandamento principal, no entanto, era que fosse constantemente des-re-montada (perdão por esta palavra horrível); o outro capítulo que salvaria da fogueira, creio ser meu favorito, é um estudo que fiz a partir das críticas e comentários de Borges sobre a literatura de James Joyce, que flutuou entre o elogio entusiasmado - principalmente na década de 20 - às críticas mais virulentas (essas, se não me enganam, se concentram lá pelos anos 40). De qualquer maneira, identifiquei alguns traços de uma espécie de Ulysses segundo Borges, e busquei demonstrar como ele repercute em alguns de seus contos, especialmente aqueles em que o narrador se coloca a partir da posição de crítico que comenta e decifra a obra de hermético autor (em Borges, a literatura de Joyce aparecia repetidamente assim, como um jogo erudito para críticos ociosos investigarem...).

O CASO AIRA

O caso Aira é curioso: não me atraiu não por conta de sua ficção, cujo primeiro livro li em uma disciplina da pós-graduação do departamento de letras e cujo título nem me lembro. Simplesmente achei tedioso, e o pior, insípido.

Certos gêneros mais estranhos de arte, essa é a verdade, quase sempre necessitam de alguma introdução ou comentário para que possa ser apreciada.

A arte de vanguarda, a arte nova: se rompeu tão radicalmente com a língua e a tradição pretérita, como o pobre e simples leitor, nela e por ela cultivado, como ele será capaz de entender tamanha estranheza?Como o leitor poderá gozar desta língua que desfez a língua a que conhece e está acostumado?

Por isso que a arte de vanguarda, antes de que possa ser lida como arte, muitas vezes se faz preciso algum tipo de preparação, e por conta disso, talvez, é comum que a crítica precise preceder a obra: para assim iniciar o leitor, prepará-lo e educá-lo para o que está por vir.

Só voltei a me interessar por César Aira quando li um ensaio seu, em que explicava seu procedimento. A arte de escrever quase sem trabalhar. A arte de escrever de outro lugar que não a partir da vida social e psicologicamente limitada do escritor. A arte de produzir escritos estranhos. A arte de assumir múltiplas formas. Foi César Aira quem me entregou as chaves para compreender uma coisa que ainda hoje me coloca para pensar quando penso em literatura: como, afinal, fazer uma história acéfala? Como fazer a literatura ir além da curta imaginação, dos vícios de linguagem e escrita do autor?

Na mesma época, um escritor bem diferente, Burroughs, me entregava a senha para um procedimento contrário, mas simétrico neste objetivo de produzir uma literatura estranha,; não me refiro exatamente aos cut-ups - estes são apenas fração do procedimento -; porque para Burroughs, escrever era espécie de mágica, e o escritor deveria ser um xamã. O corpo era apenas meio para a língua a ser preparada, mas um meio a ser transformado.

Burroughs era um escritor-viajante; precisa sofrer, experimentar, morrer e renascer, porque só assim era capaz de ser escritor. E se a metamorfose do corpo criava uma nova língua, a escrita também tinha o mesmo poder, e sem que perceba, o escritor está falando não a "própria língua", mas uma outra, que nem ele conhecia, e que começa a conhecer enquanto escreve.

Possui o escritor uma língua própria? Pensam geralmente que sim, e a isto costumam referir como estilo, sua individualidade dentro da língua da literatura. Contudo, o escritor que vislumbro, aquele em atividade, um escritor-corpo, no seu limite, diria que não, o escritor não possui uma língua própria; ou ainda, trabalha contra ela.

A obra, o objeto, o vômito, este sim é facilmente fixado como língua, e quando a obra é monumentalizada pela crítica, quando seus livros adquirem reputação e participam de conversas vulgares, é neste momento que reconhecemos os limites humanos do escritor, este ser humano que, ao longo da vida, é biopsicoquimicamente especializado para desejar uma outra língua que não a sua.

Essa ideia de escritor me foi ensinada por César Aira. Talvez seja um modelo de escritor adolescente, ainda capaz de fluir facilmente entre línguas, ainda capaz de cortar com facilidade as raízes que elas representam. Depois de velhos, homens devidamente formados, esta plasticidade talvez se reduza por motivos cognitivos, culturais, psicológicos, ou algum outro. César Aira, no entanto, tentou bolar métodos para seguir escrevendo como este adolescente, sempre fazendo sua língua correr para o estrangeiro, para o outro. O que é o procedimento - se ele existe! - se não tentativa de reduzir ao máximo possível a subjetividade que escreve?

Também é a possibilidade de escrever muito: com facilidade, rapidez e com alegria. César Aira é viciado em escrever, e me parece um viciado alegre. É um escritor hedônico. Publica duas ou três novelitas por ano. Devo ter lido quase duas dezena delas: Algumas achei incríveis, já outras - e admito: eram a maior parte -, não eram exatamente ruins, somente perfeitamente esquecíveis.

Essa é a pior parte da literatura de César Aira. A quantidade acaba ocultando a qualidade. A prosa geralmente rápida e insossa, de tom objetivo, às vezes escrita tão branca quanto a de José Agrippino de Paula, literalmente cansa, e pior que cansar, desinteressa. Espero verdadeiramente que ao fim da carreira o autor ou um editor faça uma boa seleta de suas novelas, creio que seria muito positivo para seus leitores.

A qualidade, ou melhor, a constância, no caso de Aira, é contudo questão menor, pelo menos no caso dos leitores dedicados, os nerds mais obsessivos que gostam de páginas estranhas - porque sim, mesmo que insosso, Aira sempre tem seu quê de estranho. O leitor obsessivo, se insiste em ler as novelas de Aira, se tem coragem de atravessar o tédio - e por que não aprender a ler tediosamente? por que a literatura precisa chocar o tempo todo? por que queremos tanto nos comover? - se o leitor vence o anacronismo dos livros de Aira, em algum momento passará a se afeiçoar, e talvez também comece a perceber algumas coisas que pelo menos eu fui percebendo.

César Aira é realmente um escritor para ser lido sistematicamente; seus livros, quando lidos em série - esta me parece a melhor maneira de lê-lo, em série, como se fossem histórias em quadrinhos... ler a um único livro de César Aira exige o cuidado da curadoria, porque muitos dos alegados grandes livros do escritor são grandes somente para os já iniciados... se for ler um único livro de César Aira para ver o que acha - coisa que não recomendo, o melhor é pegar uns quatro ou cinco, mas sei que temos muitos livros a ler e tão pouco tempo... - bom, que ao menos faça uma boa pesquisa, se informe com leitores mais experientes, ou irá correr o risco de desqualificar um bom escritor, e talvez de ainda bradar por aí como os críticos e intelectualizados cultuam porcarias herméticas.

A leitura de César Aira deve ser feita serialmente, porque passamos a se divertir de verdade quando compreendemos que, postas em conjunto, formam um sistema, mas não um sistema fechado, um monólito, mas um sistema que corre feito um rio, um sistema que escorre feito mijo, um sistema que como todo sistema possui repetição, mas que mesmo as repetições estão deslocadas, como em uma comédia, em que os personagens ocupam as funções equivocadas.

César Aira, evidente, possui um sistema, mas um sistema de múltiplas línguas, e línguas que se sabem literárias e artificiais, em que o tempo todo o mesmo se desloca para um outro lugar, e quando menos esperamos, na novela X reaparece a mesma situação ou objeto da novela Y, e foi quando reparei neste jogo, nesta brincadeira, que passei a gostar de lê-lo.


sexta-feira, 19 de maio de 2023

biografia de como me tornei intelectual

Há um conto de Borges - se não me engano, trata-se de uma glosa de um trecho de Croce - em que durante a invasão dos bárbaros contra Roma, houve um guerreiro bárbaro que, dislumbrado pela harmonia daqueles prédios, abarrotado pela visão desta coisas jamais vistas, mas que nelas pressentia algo de maior. O bárbaro foi tomado por um sentimento que o narrador não define, mas tão intenso ao ponto de fazê-lo não só renunciar às fileiras de seu exército, a seu povo, à sua terra, à sua família, mas empregar suas armas contra ela. O bárbaro, convertido em romano, partiu em defesa da civilização que jamais conheceu, apenas vislumbrou como sonho ou fantasia. Depois de morto, este homem foi enterrado e honrado não como um traidor , mas como legítimo romano. Às vezes imagino que já fui este bárbaro, que sem razão aparente, foi arrebatado pela sedução da cultura, da civilização, do saber, dos livros, do outro, pelo poder e felicidade que me prometiam. 


sociedades frias e quentes: sobre as bases materiais da história

1. o que a teoria marxista-comunista deseja? pelo exame do desenvolvimento histórico, empreender uma crítica teórica das ciências, e formul...